Você já discutiu com uma porta?
Cabeças ocas,
corações vazios.
No final dos tempos
o amor de muitos se esfriará.
Muitos vão se gabar
de possuir a casca
e perseguir
aqueles que têm a essência.
Revolução dos burros e idiotas,
colocando a cavalaria
pra puxar torta.
Os pássaros que cantam
irão para a prisão,
dando lugar
à maestria do avestruz
e do pavão.
Serrem agora
as unhas e os dentes do leão;
no lugar,
o miado
do gato ladrão.
Abram alas
para o reino da bajulação.
Damos início
ao Conselho babão.
Pra que tanta sabedoria
e maestria,
se temos melões,
ovos
e manteiga
nas mãos?

O Reino da Casca: quando a bajulação governa e a essência é perseguida

“Você já discutiu com uma porta?” — a pergunta que abre o poema O Reino não é apenas retórica ou provocação poética. Ela sintetiza um sentimento cada vez mais presente no debate público contemporâneo: a experiência de falar diante de estruturas fechadas, impermeáveis à escuta, à razão e ao humano. Discutir com uma porta é insistir no diálogo quando o outro lado já decidiu não ouvir.

Vivemos um tempo em que, como alertava Rosa Luxemburgo, “a liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente”. Ainda assim, observa-se a perseguição daqueles que insistem na essência — na crítica, na arte, no pensamento — enquanto se celebra a “casca”: a aparência, o cargo, o discurso vazio apresentado como virtude.

Quando o poema afirma que “muitos vão se gabar de possuir a casca e perseguir aqueles que têm a essência”, ele dialoga diretamente com Antonio Gramsci e sua análise sobre hegemonia cultural. A dominação não se sustenta apenas pela força, mas pela naturalização do superficial como regra e da mediocridade como mérito. A bajulação passa a ser critério de ascensão, e o pensamento crítico, um incômodo a ser eliminado.

A expressão “revolução dos burros e idiotas” não aponta para indivíduos isolados, mas para um processo social mais amplo: a exaltação da incompetência organizada. Paulo Freire já advertia que a despolitização é uma forma sofisticada de opressão. Quando o saber é ridicularizado e a reflexão se torna suspeita, cria-se o ambiente perfeito para o que o poema chama de “Conselho babão” — estruturas de poder sustentadas pela subserviência e não pela capacidade.

A imagem dos “pássaros que cantam indo para a prisão” expõe o ataque recorrente à cultura, à ciência e à arte. Theodor Adorno lembrava que sociedades que perseguem a arte temem, na verdade, a imaginação crítica. Não é coincidência que, nesse cenário, o avestruz — que nega a realidade — e o pavão — que vive da aparência — assumam o protagonismo.

Quando o poema convoca: “serrem agora as unhas e os dentes do leão”, denuncia-se o processo de neutralização da força coletiva e da organização popular. Che Guevara insistia que nenhuma transformação social é possível sem consciência e coragem. Retirar os dentes do leão é domesticar a sociedade, substituindo a força ética pela astúcia pequena — “o miado do gato ladrão”.

O “reino da bajulação” encontra eco nas reflexões de Pepe Mujica, que alerta para o esvaziamento ético da política quando o poder se torna um fim em si mesmo. Bajular é mais seguro do que discordar; elogiar é mais confortável do que enfrentar. Assim, a mediocridade se protege e se perpetua.

O verso final — “Pra que tanta sabedoria e maestria, se temos melões, ovos e manteiga nas mãos?” — sintetiza o triunfo do imediatismo. É a vitória do útil sem sentido, do material sem projeto, do acúmulo sem humanidade. Herbert Marcuse já denunciava esse empobrecimento da experiência humana em sociedades que reduzem tudo à funcionalidade e ao consumo.

O Reino não descreve apenas uma distopia literária. Ele aponta para um risco real e presente. Mas, ao existir como palavra crítica, o poema também afirma resistência. Como escreveu Rosa Luxemburgo, “quem não se move, não sente as correntes”. O texto se move — e convida o leitor a não aceitar, passivamente, que a casca governe para sempre sobre a essência.

Efren Saqueto é Assistente Social, tem MBA Gestão de Políticas Sociais e trabalha com famílias, servidor público há 11 anos na Prefeitura de Cândido Mota

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