O Setembro Amarelo é lembrado todos os anos como um mês dedicado à prevenção do suicídio. Mas, além de olhar para quem enfrenta pensamentos suicidas, também é preciso voltar a atenção para aqueles que ficam. A dor dos familiares e amigos que perdem alguém dessa forma é profunda e muitas vezes silenciada.
Foi o que viveu Maria Júlia da Silva Moura Barbosa, de 25 anos, que perdeu o irmão há um mês. A família ainda tenta se reerguer. “Foi a pior notícia que nós já recebemos em toda nossa vida. Tem sido muito difícil mesmo lidar com tudo isso, realmente é um dia de cada vez e todos os dias dói muito porque meu irmão era muito presente em nossas vidas. Nossa família é muito unida, sempre foi, então é muito difícil para todos nós, principalmente para minha mãe e para as duas filhas dele”, conta emocionada.
Ela lembra que tentou diversas vezes conversar com o irmão, mas ele evitava se abrir. “Tentamos tudo que vocês possam imaginar. Passamos em psiquiatra, chegamos a internar, mas nos últimos meses ele não aceitava ajuda. Marquei psicólogo para ele e ele não foi. Achava que sozinho ia conseguir resolver. Não deixava ninguém ajudar”, relata.

Apesar da dor, Maria Júlia reforça a importância de falar sobre o tema. “As pessoas têm muito preconceito, muitas julgam dizendo que é frescura ou falta de Deus. Mas a depressão é uma doença que precisa ser tratada. Quanto mais pessoas eu puder alertar eu farei, não desejo a ninguém a dor que estou sentindo agora.”
Em 2019, Felipe Tapia tinha 24 anos quando perdeu a prima Giovanna Alves Borges, encontrada sem vida em casa – ele foi o primeiro a se deparar com a jovem naquela situação. Hoje, aos 30 anos, ele ainda se lembra da cena do dia e dos primeiros meses após a perda. “Foi desesperador, uma imagem que nunca vou esquecer. Nos primeiros meses, acreditar que aquilo era verdade era muito difícil. Hoje consegui superar a culpa, e só resta a falta que ela faz”, diz.
Para Felipe, o estigma social também marcou esse período. “Lembro de uma vizinha dizer [ela vai] ‘direto pro inferno’ no dia da tragédia e de um texto no Facebook atacando a Gi, chamando-a de fraca. Foi muito doloroso. A sociedade lavou as mãos, como quem não tem culpa de nada.”
Apesar disso, ele encontrou apoio em familiares, amigos e na psicanálise. “A análise me fez entender meu lugar nisso tudo e aceitar a perda. Hoje resta só a saudade e as memórias.”
Um luto diferente
Segundo a psicóloga Anne Caroline Viotto, o luto por suicídio é considerado um luto traumático, marcado por sentimentos de culpa, estigma e vergonha. “Diferente de outras formas de luto, há um peso de questionamentos sobre o que poderia ter sido feito, o que pode tornar esse processo mais longo, intenso e doloroso”, explica.
Entre os sintomas comuns estão tristeza profunda, raiva, insônia, isolamento e dificuldade em retomar a rotina. “Sem suporte adequado, há maior risco de depressão, transtorno de estresse pós-traumático e até de ideação suicida entre familiares. Por isso, oferecer acolhimento imediato e continuado é essencial”, afirma a psicóloga.

Carol Viotto reforça a importância de que as famílias também procurem ajuda especializada. “A psicoterapia oferece um espaço seguro para expressar sentimentos muitas vezes silenciados, como raiva ou vergonha, sem medo de julgamento. Além disso, grupos de apoio para enlutados têm um papel transformador, porque permitem partilha com quem compreende essa dor”, destaca.
Grupos de acolhimento psicológico, como os oferecidos pelo curso de Psicologia da Unesp de Assis, têm se mostrado fundamentais nesse processo. A Dra. Professora Mariele Rodrigues Correa, do Departamento de Psicologia Social da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis, explica que o cuidado com pessoas enlutadas por suicídio é chamado de pósvenção.
“Existe a prevenção ao suicídio, mas quando ele ocorre, precisamos olhar para quem fica. A pósvenção é o cuidado com essas pessoas, que são profundamente impactadas pela perda, incluindo familiares, amigos e conhecidos. É um cuidado específico, porque o luto por suicídio é marcado por perguntas difíceis, pelo ‘por quê’ e pelo ‘como’, que muitas vezes não têm resposta, gerando sofrimento intenso”, destaca.
Segundo Mariele, cuidar do luto por suicídio vai além da atenção profissional. “Não é só psicoterapia ou atendimento especializado. O apoio social é fundamental. Muitas vezes, as pessoas enlutadas se deparam com perguntas invasivas ou julgamentos do tipo ‘por que ele fez isso?’, o que torna o processo ainda mais doloroso. A solidariedade e a sensibilidade do entorno social funcionam como fator protetivo, ajudando a reduzir complicações no luto”.
O núcleo de estágio coordenado por Mariele atende casos de luto de maneira geral e luto por suicídio. Após a triagem, os participantes podem receber psicoterapia individual ou participar de grupos terapêuticos, conforme a demanda. “O grupo é um espaço muito potente, porque reúne pessoas que compartilham experiências semelhantes, possibilitando identificação, construção de vínculos e partilha da dor. É um espaço seguro em que os enlutados se reconhecem, sentem-se acolhidos e compreendidos”, explica a professora.

Ela ainda reforça a possibilidade de expansão: “Havendo procura, podemos oferecer esses grupos também para pessoas de Assis e região. O importante é que as pessoas sintam que não estão sozinhas e que há espaços de escuta e acolhimento para ajudá-las a atravessar o luto”.
Mariele também destaca a importância do cuidado na comunicação sobre suicídio, seguindo recomendações de organismos internacionais como a OMS. “A forma como a morte é noticiada tem impacto direto no luto dos familiares e amigos, e notícias bem conduzidas podem oferecer proteção, evitando estigmatizar ainda mais as pessoas enlutadas”, afirma.
O peso coletivo
Um estudo coordenado pela pesquisadora Julie Cerel, da Universidade do Kentucky (EUA), aponta que cerca de 135 pessoas são impactadas com um único suicídio. Destas, aproximadamente 25 podem desenvolver ideação suicida ou chegar a tentar contra a própria vida.
“Cuidar das famílias enlutadas também é prevenção, pois reduz o risco de novos casos dentro do mesmo núcleo”, destaca Carol Viotto.
Apoio disponível
O CVV (Centro de Valorização da Vida) atua em todo o país com atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br. Além de acolher pessoas em crise, também oferece apoio a famílias enlutadas.
Centro de Pesquisas e Psicologia Aplicada (CPPA) da Unesp Assis, localizada na Avenida Dom Antônio, 2100. Mais informações pelo telefone (18) 3302-5905 ou presencialmente no CPPA.
Pessoas também podem encontrar apoio e ajuda nas Unidades Básicas de Saúde da cidade.

