Todo 15 de outubro, professores e professoras de todo o Brasil recebem pequenas lembranças — um chocolate, um cartão, uma palavra de carinho. São gestos simples, mas que simbolizam o reconhecimento por uma das profissões mais essenciais à construção de uma sociedade justa e consciente. Afinal, somos quase 3 milhões de educadores espalhados pelo país, atuando em diferentes níveis de ensino e realidades.

Ser professor é ser intelectual, é produzir e compartilhar conhecimento. É contribuir para a formação de cidadãos críticos, capazes de compreender o mundo e transformá-lo. No entanto, essa profissão, que deveria ser motivo de orgulho nacional, tem sido, há tempos, colocada à prova.

Vivemos uma crise de reconhecimento. Não é raro ver políticos acusando professores de “doutrinar” alunos, tentando reduzir o papel da escola a um espaço vazio, como se a neutralidade existisse em uma sociedade marcada por desigualdades e subjetividades. A chamada “escola sem partido” não é, de fato, uma proposta de equilíbrio, mas de silenciamento. O que se busca é uma escola sem pensamento crítico, sem reflexão, sem questionamento. Uma escola onde os alunos aprendam a obedecer e não a pensar.

E é justamente esse pensamento crítico que incomoda. Alunos que pensam, questionam e refletem tornam-se cidadãos mais conscientes e cidadãos conscientes cobram, votam melhor, exigem políticas públicas e reconhecem manipulações. Por isso, enfraquecer o professor é uma forma de enfraquecer a democracia.

Essa falta de valorização por parte da sociedade e da classe política impacta diretamente a autoestima e o orgulho dos profissionais da educação. Soma-se a isso a falta de estrutura nas escolas, a indisciplina, a violência, a sobrecarga de trabalho e o avanço da plataformização do ensino que desumaniza o processo educativo. O resultado é visível: professores adoecendo, sofrendo de esgotamento físico e mental, além de jovens cada vez mais desmotivados a seguir o caminho das licenciaturas.

Lembro-me de quando prestei vestibular para o curso de História na Unesp de Assis. Havia cerca de 180 candidatos disputando 45 vagas. No processo seletivo do ano passado, 2024, esse número mal chegou a 80 candidatos para 40 vagas. A docência deixou de ser sonho para muitos. E isso é um sintoma grave.

Parte dessa desvalorização vem também da influência de discursos superficiais propagados por “coachs” e influenciadores digitais que afirmam que “não é preciso estudar para enriquecer”. Esse tipo de pensamento é um desserviço à educação e a juventude, pois desconsidera o valor do conhecimento como instrumento de mobilidade social e emancipação.

Dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados pela Agência Brasil, desmentem esse discurso e mostram que brasileiros com ensino superior ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que concluíram apenas o ensino médio. Ou seja, mais estudo ainda é sinônimo de mais oportunidades e melhores condições de vida. A falácia de que a educação “não compensa” cai por terra diante desses números.

Outro desafio é a sobrecarga. Muitos professores, para garantir um mínimo de estabilidade financeira, precisam trabalhar em mais de uma rede de ensino, seja estadual, municipal e particular, acumulando três vínculos e dezenas de turmas. O resultado é um cotidiano exaustivo, com pouco tempo para planejar, inovar ou até mesmo descansar. Casos de síndrome de Burnout entre docentes têm crescido e isso deveria alarmar qualquer gestor público que realmente se importa com o futuro da educação.

A educação que defendemos é muito maior do que a que vem sendo representada nas políticas atuais. Ela vai além de números em avaliações e índices artificiais usados para propaganda política. Educação é transformação humana, é sensibilidade, é olhar para o outro e reconhecer as desigualdades dentro e fora da sala de aula.

Não estamos cansados de ensinar. Estamos cansados do peso que recai sobre nós. Da falta de reconhecimento, da precarização, da ausência de políticas públicas consistentes. Ser professor continua sendo uma das experiências mais belas e desafiadoras que alguém pode viver. Ensinar é um ato de coragem, de fé e de esperança no futuro.

Que um dia sejamos vistos com o olhar justo que merecemos, não apenas com lembranças simbólicas no Dia dos Professores, mas com políticas concretas que valorizem nossa formação, nosso tempo e nossa saúde. Até lá, seguimos firmes, com a esperança de que cada aluno transformado por nosso trabalho seja também uma semente de mudança.

Feliz Dia dos Professores a todos os colegas e amigos de profissão. Que continuemos acreditando no poder da educação e no valor daquilo que fazemos todos os dias: formar mentes, tocar vidas e construir futuros.

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