Os números divulgados sobre os casos de estupro em Assis apontam que o estupro de vulnerável é uma realidade recorrente no município. Após a publicação dos dados oficiais, a produção do AssisCity apurou que a violência sexual contra crianças e adolescentes deixa marcas profundas, com consequências que podem afetar o desenvolvimento emocional, psicológico e social das vítimas por toda a vida.

Estudos na área da psicologia apontam que o desenvolvimento humano acontece de forma integrada, envolvendo fatores biológicos, emocionais e sociais. Segundo a psicóloga Maristela Sobral Cortinhas, autora do artigo “Estupro de vulnerável e sua dimensão psicológica”, a infância é uma fase decisiva para a formação da personalidade, da autoestima e da capacidade de estabelecer vínculos afetivos saudáveis.

“A criança constrói sua percepção do mundo a partir das relações que estabelece com seus cuidadores. Quando essas relações são atravessadas pela violência, especialmente a sexual, há uma ruptura profunda nesse processo”, explica a psicóloga.

Violência sexual ocorre, em sua maioria, dentro do ambiente familiar

Pesquisas citadas no estudo mostram que a maioria dos casos de estupro de vulnerável ocorre dentro do ambiente familiar ou é praticada por pessoas próximas à vítima, como parentes, padrastos, conhecidos ou pessoas em quem a criança confia. Esse fator torna o crime ainda mais complexo, pois o agressor costuma ocupar uma posição de autoridade ou proteção.

De acordo com a especialista, essa proximidade favorece o silêncio e dificulta a denúncia. Muitas crianças não conseguem identificar que estão sendo vítimas de um crime ou não encontram espaço seguro para relatar a violência. “O medo de represálias, a confusão emocional e a dependência afetiva do agressor contribuem para a manutenção do abuso”, destaca Maristela.

Segundo dados da pesquisa Maristela, muitos casos de violência sexual permanecem em silêncio por muito tempo. Ele chama esse fenômeno de “síndrome do segredo”, quando a vítima não consegue revelar o abuso. “Esse silêncio forçado intensifica os danos psicológicos”, destaca a psicóloga.

Sentimentos de culpa, medo e vergonha são frequentes

Segundo o estudo, é comum que a vítima desenvolva sentimentos de culpa, vergonha e medo, mesmo não tendo qualquer responsabilidade pelo abuso. Em muitos casos, o agressor utiliza manipulação emocional, ameaças ou chantagens para manter o controle da situação.

Maristela explica que esses sentimentos contraditórios podem gerar confusão mental, ansiedade, depressão, dificuldades de socialização e problemas de aprendizagem. “A criança pode apresentar mudanças bruscas de comportamento, queda no rendimento escolar, isolamento, agressividade ou regressão a comportamentos infantis”, afirma. E em algumas situações mais graves, os traumas podem evoluir para Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), aponta a pesquisa.

Adolescência é período de maior exposição para meninas

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, analisados por Samira Bueno e Isabela Sobral, no artigo “Um estupro a cada 8 minutos”, indicam que a violência sexual atinge meninos e meninas de forma diferente ao longo da vida. Enquanto os meninos são mais vitimizados na primeira infância, entre as meninas os casos se concentram principalmente na adolescência, com pico por volta dos 13 anos.

Em um outro artigo “O Perfil da Vítima de Estupro no Brasil e a Formação da Subjetividade”, Maristela Cortinhas e Maria Dias, apontam que essa diferença está relacionada às desigualdades de gênero ainda presentes na sociedade. “A violência sexual contra meninas expressa relações de poder, controle e submissão, que refletem uma estrutura social patriarcal”, explicam as autoras.

Na adolescência, embora a vítima já tenha maior compreensão do que está acontecendo, o sofrimento emocional pode ser ainda mais intenso. “A jovem pode reconhecer a violência, mas também sentir culpa, medo de julgamento e vergonha, o que dificulta a busca por ajuda”, pontua a psicóloga.

Consequências podem se estender até a vida adulta

Especialistas alertam que os impactos da violência sexual não se encerram na infância ou adolescência. Sem acompanhamento adequado, as marcas podem persistir na vida adulta, afetando relacionamentos, autoestima, sexualidade e saúde mental.

Entre as consequências mais relatadas estão dificuldades de confiança, medo de intimidade, episódios de ansiedade, depressão, automutilação e até pensamentos suicidas. Por isso, o atendimento psicológico e o acolhimento especializado são considerados fundamentais desde os primeiros sinais de abuso.

“Cada caso é único e precisa ser tratado de forma individualizada, levando em conta a idade da vítima, o vínculo com o agressor, o tempo de exposição à violência e o contexto familiar”, reforça Cortinhas.

Importância da denúncia e da rede de proteção

Os dados de Assis reforçam que o estupro de vulnerável é uma realidade preocupante e recorrente. A denúncia é considerada um passo essencial para interromper o ciclo de violência e garantir proteção à vítima.

Para casos de suspeita ou confirmação de violência sexual contra crianças e adolescentes, a orientação é procurar o Conselho Tutelar, a Polícia Civil, a Delegacia da Mulher ou ligar para o Disque 100, canal nacional de denúncias de violações de direitos humanos.

Share.

NOSSOS COLUNISTAS