No início de agosto de 2025, o influenciador Felipe “Felca” Bressanim publicou um vídeo de cinquenta minutos em seu canal denunciando casos de adultização e exploração de crianças e adolescentes nas redes sociais.
O youtuber reuniu denúncias contra criadores de conteúdo que monetizam a imagem de menores, mostrou como algoritmos das plataformas recomendam vídeos cada vez mais sugestivos e entrevistou uma psicóloga especializada em proteção infantil.
A repercussão foi imediata: em poucos dias o vídeo ultrapassou 30 milhões de visualizações, atingiu parlamentares e motivou a apresentação de dezenas de projetos de lei no Congresso Nacional.
Entre essas iniciativas está o PL 3852/25, conhecido como “Lei Felca”, que propõe medidas para prevenir, proibir e criminalizar a adultização e a sexualização de crianças na internet.
O que é adultização infantil?
Especialistas definem a adultização como a exposição precoce de crianças a conteúdos, comportamentos, responsabilidades ou estéticas próprias da vida adulta antes que estejam emocional, física ou cognitivamente preparadas. A pediatra Anna Bohn, da Sociedade Brasileira de Pediatria, em recente entrevista ao canal SBT News explicou que a adultização infantil inclui o contato contínuo comconteúdos adultos – seja em telas, livros ou hábitos – e alerta para os riscos importantes à saúde mental e emocional.
A pedagoga Mariana Ruske comentando o assunto reforçou que o problema central é o “roubo de etapas importantes da infância”.
Exemplos de adultização incluem:
- Exposição a filmes e cenas de sexo ou violência;
- Obrigar a criança a cuidar de irmãos menores ou assumir responsabilidades de adultos;
- Expor a criança a brigas e problemas financeiros dos pais;
- Reproduzir gestos e coreografias de teor erótico;
- Usar maquiagens e roupas de adulto.
Consequências e riscos
O impacto da adultização vai além do que muitos pais imaginam. Segundo a pediatra Anna Bohn, crianças adultizadas têm maior probabilidade de sofrer violências e traumas psicológicos, como ansiedade e depressão a longo prazo.
A especialista alerta que a exposição precoce gera sexualização e torna os menores mais vulneráveis a abuso sexual, pois ainda não conseguem reconhecer situações de risco ou impor limites.
Mariana Ruske acrescenta que essa exposição “quebra o ritmo natural do desenvolvimento”, gerando insegurança, baixa autoestima e distorção de valores.
Ela lembrou que o cérebro infantil não tem córtex pré-frontal maduro para tomar decisões ou compreender plenamente as consequências de seus atos.
Outro fator de risco são os algoritmos das redes sociais. Felca demonstrou em seu vídeo que, ao interagir com conteúdos “mais sugestivos”, o sistema aprende rapidamente a preferência e passa a recomendar vídeos semelhantes. Isso cria um ciclo em que crianças expostas a conteúdos inadequados recebem cada vez mais materiais do mesmo tipo.
As especialistas entrevistadas pelo SBT News destacaram que “as redes não são feitas para proteger as crianças, mas para vender conteúdo”.
Uma foto ou vídeo de um filho pode alcançar centenas ou milhares de predadores escondidos atrás das telas em poucos segundos.
“Algoritmo P” e a reação do Congresso
No vídeo, Felca chamou atenção para o chamado “algoritmo P” – expressão que ele usa para descrever como os algoritmos das plataformas acabam entregando conteúdos sexualizados de crianças a usuários com esse interesse.
Embora o termo não exista na legislação, a denúncia levou a um movimento legislativo. Em 12 de agosto de 2025, o portal da Câmara dos Deputados informou que a denúncia de Felca motivou 32 projetos de lei voltados à prevenção e ao combate da adultização, exploração sexual e outros crimes contra crianças na internet.
As propostas incluem restrições à monetização de vídeos com menores, exigência de alvará judicial para atuação artística de crianças no meio digital, criminalização da adultização digital, responsabilização de pais ou responsáveis e obrigações para plataformas, como verificação de idade, controle parental e canais de denúncia.
Entre os projetos, destaca-se o PL 3852/25, de autoria do deputado Marx Beltrão (PP‑AL), que institui a Lei Felca e trata especificamente da prevenção e criminalização da adultização e sexualização infantil na internet. Essa proposta visa não apenas punir a exploração, mas também obrigar plataformas a adotar mecanismos de proteção.
Códigos usados por abusadores nas redes
Uma das descobertas mais chocantes do caso diz respeito à forma como pedófilos se comunicam nos comentários de fotos e vídeos de crianças. Reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, revelou que criminosos utilizam palavras‑chave aparentemente inofensivas para marcar imagens e chamar a atenção de outros abusadores.
O influenciador Jonas Carvalho contou que comentários como “perdoe, pequena” ou “errei, fui Raulzito” começaram a aparecer em postagens de seus filhos. Inicialmente, ele não entendia o significado; só depois descobriu que eram códigos usados por pedófilos para sinalizar conteúdo de interesse.
Investigações mostraram que criminosos se aproveitam de perfis de influenciadores que expõem a rotina dos filhos. Eles deixam comentários aparentemente inocentes que funcionam como “sinalizadores” para outros pedófilos.
Um exemplo é a frase “me perdoe, pequena” (inspirada no vilão Thanos, de Os Vingadores), que não tem conotação sexual, mas é usada pelos grupos de pedofilia para indicar que a foto é “valiosa”.
Essas expressões têm significado implícito conhecido apenas entre membros da rede.
Por que os pais precisam ficar atentos
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante que nenhuma criança ou adolescente será objeto de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão.
Apesar disso, a era digital cria novos desafios. Pais e responsáveis costumam registrar cada passo dos filhos nas redes, mas especialistas alertam que criminosos acessam e interceptam fotos de perfis abertos, muitas vezes sem que os próprios autores percebam.
A exposição excessiva pode transformar a vida das crianças em conteúdo para algoritmos e predadores. Além da possibilidade de os materiais serem roubados e comercializados em grupos de pedofilia, a constante busca por engajamento pode impactar o desenvolvimento emocional e psicológico dos pequenos.
É por isso que o debate não se limita a “cancelar” influenciadores; trata-se de proteger a infância e assegurar o direito ao desenvolvimento saudável.
Como proteger crianças e adolescentes
As especialistas ouvidas por vários veículos de comunicação concordam que a proteção começa em casa. Algumas recomendações práticas são:
- Limitar a exposição: perguntar-se por que postar fotos ou vídeos e se essa exposição atende ao interesse da criança. Em perfis dedicados, dar preferência a contas privadas para controlar quem pode ver as publicações.
- Restringir o uso de telas: evitar celular antes dos 13 anos e redes sociais antes dos 16; estabelecer limites de tempo e acompanhar de perto o que a criança consome.
- Observar o conteúdo: não publicar imagens com roupas curtas, poses sugestivas ou em contextos que possam ser mal interpretados. Ao filmar brincadeiras, prefira ângulos que não exponham partes íntimas ou identifiquem o local exato.
- Controlar comentários: desativar comentários em postagens de crianças ou moderá-los rigorosamente para evitar códigos de predadores. Denunciar perfis ou mensagens suspeitas às plataformas e às autoridades. No Brasil, denúncias podem ser feitas anonimamente via SaferNet (www.denuncie.org.br) ou Disque 100.
- Educar e dialogar: conversar com os filhos sobre segurança digital, consentimento e respeito ao próprio corpo; estimular o pensamento crítico e a autoestima para reduzir a busca por validação externa.
- Exigir responsabilidade das plataformas: apoiar leis que obriguem empresas de tecnologia a verificar a idade dos usuários, facilitar denúncias, bloquear algoritmos que incentivem a sexualização infantil e proteger dados de menores.
Lei Felca e outras medidas legislativas
O movimento desencadeado por Felca mostra que a sociedade e o poder público estão atentos. A Lei Felca (PL 3852/25) prevê medidas para proibir a adultização e sexualização de crianças na internet, responsabilizar quem produz ou compartilha esse tipo de conteúdo e exigir ferramentas de proteção e denúncia nas plataformas digitais.
Outros projetos sugerem regras para a monetização de conteúdos com menores, exigência de alvará para atuação artística digital, agravamento de penas para exploração sexual e obrigações de transparência sobre como algoritmos direcionam vídeos a usuários.
Embora as propostas ainda tramitem no Congresso, o ECA já oferece uma base legal para proteger crianças e adolescentes. Caberá à sociedade pressionar por uma regulamentação mais robusta, que inclua fiscalização efetiva e campanhas de conscientização.
A discussão sobre a adultização de menores não é nova, mas ganhou força com o vídeo de Felca e a repercussão nas redes. Ela expõe um problema estrutural: a infância tem sido explorada como conteúdo, e algoritmos poderosos amplificam comportamentos nocivos.
Pedófilos se aproveitam de códigos e brechas nas plataformas para marcar imagens e aliciar outras pessoas. Combater esse fenômeno exige ação conjunta de famílias, educadores, empresas de tecnologia e legisladores.
Como pais e responsáveis, é fundamental refletir sobre a quantidade e o tipo de informações que compartilhamos online, educar as crianças para o uso seguro das redes e exigir das autoridades políticas públicas que coloquem a proteção da infância acima do lucro e da visibilidade. Afinal, como lembra o ECA, a criança tem direito a crescer em ambiente de dignidade e respeito— e a sociedade precisa garantir que esse direito seja cumprido, dentro e fora da internet.










