Há um silêncio antigo antes destas palavras. Faz tempo que reluto em escrevê-las.
Foram meses muito felizes que passamos juntos por aqui — uma felicidade que parecia pertencer a um estado raro, quase impossível de encontrar. Parecia até que nossa amizade tivesse começado na infância. Além de exatos poucos anos que nos separavam, havia apenas algumas mesas e pisos de taco entre nós.
Samuel era bravo pela manhã, mas logo passava. Dez minutos depois de chegar, ainda chateado por acordar às sete, já animava o ambiente. Assim que o trabalho permitia, virava a cadeira para me contar causos e seus planos de recém-casado. Eu também fazia questão de falar sobre meus dias.
Mais velho, compartilhava com ele algumas experiências, e quase sempre as conversas terminavam em risadas ou em desabafos rotineiros. Sorrir diante das dificuldades que a vida nos apresentava era, na verdade, um momento de fuga.
Quando me disse que rumaria a outras rotinas, fiz questão de apoiá-lo: “Segue feliz o teu caminho e obrigado por essa amizade.”
Em 16 de fevereiro, partiu para o eterno. Havíamos deixado combinado um churrasco para um sábado à tarde…
Naquele dia, ele acordou feliz. Era aniversário de sua esposa, e em pouco tempo comemorariam trinta anos de matrimônio. Pediu folga do trabalho e, no restaurante da cidade, separou a melhor mesa para celebrar.
Após o almoço e o sorvete na praça, foram para casa. O descanso terminou quando uma dor de estômago começou a incomodar. Sem querer atrapalhar ninguém, foi sozinho até o hospital mais próximo. Não chegou a encontrar um médico. Na calçada daquele pronto-socorro, caiu.
Juliano era um dos meus primos mais velhos — daqueles que admiramos desde cedo, que crescem diante de nós como referência, mas que, pelos caminhos que a vida constrói, acabam se distanciando em algum momento.
Os nossos encontros familiares sempre foram regados a pão-sírio e muita festa, conforme mandam as tradições dos avós. Ele era daqueles que tinham o sorriso primeiro, o abraço mais forte e a alegria estampada na testa.
Dias atrás, uma grande comoção tomou conta da cidade por conta do trágico acidente de trânsito que ocasionou a morte de um jovem assisense. Assisti a um vídeo em que ele e a esposa, felizes, haviam ido a outro estado atrás de um sonho. Pegaram a estrada de volta à terra natal. Seus sonhos, porém, deram lugar a lágrimas e a uma tristeza sem tamanho.
Eu não o conhecia, mas é impossível, a qualquer ser humano com o mínimo de sentimentos bons, não se sensibilizar com tamanho drama. Para quem acredita, aqueles que se vão deste plano estão em um lugar cheio de luz e paz. Mas explicar tal esperança aos familiares e amigos próximos não é tarefa para qualquer cristão.
Em nossa vida passamos por experiências que mais parecem fardos a se carregar. A felicidade, por vezes, é uma utopia logo interrompida por momentos de dor, sofrimento e luto.
Do amigo… ao familiar… ao desconhecido… A ausência, em todas as suas formas, tem um peso igual.
Já há algum tempo eu reluto em escrever estas tristes palavras. Mas talvez essa seja a única maneira de não deixá-los partir por completo.
Kallil Dib

