Disse Caetano Veloso em sua música Sampa: “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. Essa frase resume a fábula grega de Narciso, onde, resumidamente, diz que Narciso era um Auto-Admirador, famoso pela sua beleza e orgulho. Para os gregos, ele simbolizava a vaidade, embevecimento e insensibilidade, visto que ele era emocionalmente entorpecido às solicitações daquela que se apaixonara pela sua beleza. E como punição, foi amaldiçoado a apaixonar-se incontrolavelmente por sua própria imagem.
Narciso amava a sua beleza, como um ser que se apaixona perdidamente pelo olhar da amada, que jamais veria outro sequer semelhante. O personagem da mitologia grega deixou um legado de amor próprio, de contemplação de sua beleza. Formidavelmente, Narciso criou um legado. Deixou por aqui descendentes de sua maldição.
Mas que maldição é essa que vaga entre os meios de hoje? Jovens, adultos e até crianças estão a cada dia se acostumando a contemplarem suas belezas. Imagem e semelhança de si próprio, uma contemplação sem tamanho. Espetáculo em tempo real: admirar um retrato tirado sobre ele mesmo. De braços esticados, sobre o sol, sobre a chuva, em frente ao espelho.
Não existem mais por aqui pessoas que assumem suas imperfeições físicas, e não são necessários os meios práticos para aguçar suas qualidades corporais (academias, alimentação, práticas esportivas), hoje se diminui a barriga e se retira as olheiras de uma noite mal dormida, apenas com dois toques na tela. Isso sim é imperfeito!
Maquiagem retocada, sorriso amarelo desfeito, olhos vermelhos desfocados, cabelos lisos. Uma contemplação sem fim em frente ao espelho da vida. São todos filhos de Narciso, e reféns do figurino imposto pela realidade social. E tiramos “selfies” até da nossa ignorância.
“[…]
Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio
O que não é espelho
E a mente apavora o que ainda
Não é mesmo velho
Nada do que não era antes
Quando não somos mutantes
[…]”
Narciso se afogou ao admirar em um rio a sua própria beleza, e aquela que o amava quando foi buscar o corpo de Narciso, no local encontrou apenas flores: O Narciso, a flor de Narciso. Então, que desabrochem as flores dessa juventude Narcisista.
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Kallil Dib
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