
Por Ulisses Coelho
Quantificar é uma autodemonstração de poder. Tudo aquilo que posso contar, numerar e classificar está dentro de um domínio particular. Sei que é preciso ir ao mercado fazer compras quando vejo o último saco de arroz sendo aberto. O que no início do mês foi três agora é zero. Hora de tomar uma providência.
É interessante isso de exercer um domínio de si mesmo por meio dos números. Um pouco de história da matemática… Essa ciência começa suas colocar suas “manguinhas de fora” na Babilônia, entre os séculos IX e VIII a.C. Ela era praticada pelos guardadores e responsáveis dos tesouros reais, daí o nome tesoureiro para o profissional que lida com as finanças.
Há uma coisa muito importante em comum que unifica a gênese da matemática e o Censo 2010, pois ambos vão trabalhar com tesouros. Enquanto as riquezas do Rei da Babilônia podiam ser pesadas em barras de ouro, a preciosidade do Brasil é o povo que será ouvido, contado e consultado pelos agentes censitários.
Entendo essa gigantesca pesquisa populacional como oportunidade para analisarmos formas de controle sobre nossas próprias ações. Não é pra escutar o jornal do horário nobre, com suas tendenciosas opiniões sobre o que devemos fazer ou não, mas avaliar os números recolhidos e fazermos interpretações individuais que orientem a nossa ação.
Grandes filósofos foram matemáticos, o que me permite um comentário ousado, e afirmar que a linha entre filosofia e matemática é tão tênue que não sabemos onde começa uma e termina a outra. Filósofos como Pitágoras, Platão, Descartes e Bertrand Russel também marcaram a disciplina das formulas e cálculos.
“Os números governam o mundo”, já dizia Platão. Não creio que as simbologias numéricas governem o mundo, mas que o olhar humanitário para que elas dizem pode sim ajudar a governar. Então que se faça a abordagem mais filosófica possível dos números!
Ulisses Coelho
