22 de Setembro de 2019
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A incômoda sensação de cidade abandonada



*Cláudio Messias

Leio que o Ministério Público Estadual impediu a utilização de algumas praças esportivas de Assis para a prática de competições oficiais. As razões que levaram a isso são conhecidas exatamente pelo público que prestigia torneios de futsal e futebol de campo, por exemplo. Aos poucos, ginásios e estádios foram abandonados, e não foi só na atual gestão, não. Até chegar à condição caótica em que, pasmem, não ofereçam segurança para o público.

Retornei a Assis, profissionalmente, há 9 anos. Desde então, testemunhei dois prefeitos, comandando três gestões. Modos totalmente opostos de gerir o esporte na cidade. Carlos Nóbile, com todas as críticas que sua administração merece e mereceu, foi o único prefeito que vi, em meus 42 anos de vida, adotar uma política pública de incentivo ao esporte, seja ele amador ou profissional. Sem aprofundar nos detalhes cito dois exemplos bem sucedidos de diálogo com a iniciativa privada: o Clube Atlético Assisense, no futebol de campo, e o Conti Assis, no basquete masculino.

No primeiro mandato do prefeito EzioSpera, sucessor de Nóbile, mudanças bruscas no modo de administrar o esporte na cidade. O foco no esporte amador deu certo, sim, bastando olhar para centros esportivos construídos em complexos de bairros antes desabastecidos desse tipo de estrutura. O esporte profissional, contudo, foi tratado como se fosse um corte, um machucado, um trauma no organismo chamado poder público municipal. Ações diretas do gabinete do prefeito tiveram o efeito, na carne, de um torniquete. De tanto apertar, nesses oito anos, e o local que antes era tido como sangria agora mostra-se passível de amputação. Vejo o esporte morrendo em Assis.

O nome de uma cidade paga preço caro quando uma agremiação local o tem na denominação principal, própria. O MAC era o "Marília" nos áureos tempos em que Palhinha e Andrei o levaram da Série A-2 à Primeira Divisão, ou então disputou a Série B do Brasileirão, dez anos atrás. Bastou uma década, contudo, para os investimentos cessarem e o mesmo clube levar Marília a um despencar íngreme de divisões, seja no estadual, seja no nacional.

Com Assis não tem sido diferente. Iguais dez anos atrás víamos o basquete masculino levando multidões ao Gema e, depois, ao Jairão. O fenômeno Conti Assis marcou uma geração inteira, que aprendeu a idolatrar Arnaldinho e Marcinho. Quase concomitante ocorreu a ascensão do Clube Atlético Assisense, que por 1 gol no saldo de gols não conseguiu o acesso à Série A3 em 2004. Basquete campeão do torneio Novo Milênio, futebol em alta. E o nome de Assis projetado. Nos últimos cinco anos, no entanto... Conti Assis tornou-se Assis Basket, e o Clube Atlético Assisense conheceu o lado extremo das dificuldades. O nome de Assis despencou junto, ano a ano, com as campanhas.

Algumas bizarrices, nesse aspecto, foram somadas à falta de suficiência de políticas públicas do município na gestão do esporte. A pior delas foi aespeculação de que o Assis Basket poderia ir para Marília ou mesmo para a Grande São Paulo. Infantil, de mau gosto e puramente sem sentido uma insinuação de que o nome de Assis pudesse ser levado assim, de qualquer maneira, a outra localidade. E, pior, com a fé de que a comunidade receptora aceitaria isso assim, na boa, lotando ginásios e vestindo a camisa branca e azul celeste. O Grêmio, que passou de Barueri para Prudente e depois voltou para Barueri, é a prova material e vergonhosa de que isso não dá certo, nem no mundo dos contos de fada.

Em se tratando de estrutura, desde que foi inaugurado, o Tonicão nunca foi um exemplo de instalação esportiva. No meu entender, aquele estádio já foi inaugurado sem estar pronto. E continua incompleto até hoje, faltando sistemas de iluminação e cobertura. E a cada ano, a cada virada de gestão na Prefeitura, o caos se estabelece naquela praça esportiva. Quando EzioSpera assumiu a prefeitura foi anunciada uma política que, confesso, me agradou. O Tonicão seria para competições profissionais, enquanto o esporte amador ficaria com o estádio municipal Marcelino de Souza. Se contar isso em Brasópolis ninguém vai acreditar, mas passaram-se oito anos, duas gestões e o prefeito não conseguiu reinaugurar o Sãopaulinho. É como se tivessem preparado a festa, confeitado o bolo, enchido a boca de todo mundo com água, mas, jamais servido o prato.

Como já disse aqui, neste espaço, nunca troquei uma palavra sequer com EzioSpera. Com certeza isso não fez falta a ele, muito menos a Assis. Garanto, com igual convicção, de que não engordei ou emagreci preciosos gramas ou quilos por essa ausência de diálogo. Agora, faltando pouco mais de dois meses para terminar a administração, o tenho como prefeito caviar, ou seja, nunca vi (pessoalmente), não conheço, só ouço falar, como cantado, em crítica social, por Zeca Pagodinho. E no começo ouvia falar bem, mas muito bem do pediatra, do articulador. Como jornalista, na época em que ele era candidato, em 2004, tentei falar com sua pessoa por diversas vezes, sem sucesso, pois um batalhão de assessores o blindava. Assessores esses que com o tempo caíram feito casca da ferida que o torniquete estancou parágrafos atrás.

Tudo bem, prefeito tem que agir. Falar é um detalhe. E se era para falar, que fosse com os tidos aliados. Logo, vou à práxis cotidiana desse prefeito a que me refiro. Sim, fomos administrados por um médico nesses oito anos. E médico bom no futebol eu só conheço três: Zanini, André Gava e Osmar de Oliveira. O primeiro, eterno parceiro do Vocem e do Assisense. O segundo, por sua atuação naquele fatídico jogo em que o Assisense foi prejudicado pela arbitragem e viu o Campinas conquistar a vaga para a A3. Não entremos em detalhes... Também sem necessidade de detalhes o por quê de eu considerar o médico Osmar de Oliveira, meu amigo, da Band, bom entendedor de futebol.

Um prefeito que não tem afinidade com o esporte e é médico tem, então, de resolver pelo menos parte dos problemas relacionados à saúde em uma cidade de pretensos 100 mil habitantes. Sim, nesse contexto temos o ambulatório de atendimento da Vila Maria Isabel, cujo funcionamento descongestionou Santa Casa e Hospital Regional, certo? Nem tão certo assim. Igual investimento, feito no Jardim Paraná, nunca saiu de uma construção inacabada. O ambulatório é para o bairro o que o Hospital Regional foi durante anos do governo do PMDB para toda a região: um elefante branco. E não duvide que logo surgirá um candidato a deputado, daqui a dois anos, fazendo campanha para por em funcionamento aquela importante estrutura pública.

Em minhas duas décadas de atuação como jornalista em Assis sempre noticiei as crises da Santa Casa. Eu, meus irmãos e meus dois filhos nascemos naquela maternidade. Nessas etapas, que correspondem a gerações, meus filhos nasceram em momentos da história da Santa Casa marcados por séria crise financeira. No final dos anos 1990, por exemplo, aderi e trabalhei nas campanhas que tentavam, junto à sociedade assisense, arrecadar dinheiro para pagar as contas daquele hospital. E quando pela primeira vez vi um médico chegar à condição de prefeito imaginei, confesso, que ações concretas partiriam das políticas públicas para equacionar o problema da saúde não só da Santa Casa, mas da cidade como um todo.

Hoje leio que a situação financeira da Santa Casa de Assis continua séria. Sim, não é exclusividade daqui, mas de praticamente todas as cidades do país que tenham Santas Casas. Mas, gostaria muito que me convencessem do contrário desse enunciado lógico: nem todas as cidades cujas santas casas passam por crise são ou foram administradas por um médico. E, convenhamos, EzioSpera não é qualquer médico. Tenho casos na família de crianças que, não há dúvidas, tiveram as vidas salvas por diagnósticos e/ou intervenções milagrosas das mãos desse pediatra que aqui cito. É daí que vem a frustração de ver pouca ou nenhuma mudança significativa na estrutura de funcionamento da saúde pública de minha cidade.

Óbvio que um prefeito que seja policial não vá solucionar todos os problemas relacionados a segurança pública de sua cidade. E não seria o médico EzioSpera que faria de Assis uma Havana dos anos 1990. Aquilo a que estou me referindo nessas linhas está centrado nas atitudes. Não se fez, mas, também, não tentou-se fazer. Ou se foi tentado, não mostrou-se. E olha que a pasta da Saúde, de EzioSpera, teve a competente passagem de Eduardo de Camargo Neto, cujo caráter conheço desde os primórdios de meu ingresso na imprensa, em 1985, na rádio Cultura da família Camargo.

De dois anos para cá o que percebo é uma falta de apetite pela coisa. Segundo e último mandato e surgem alianças antes inimagináveis. E o DEM faz pacto local com o PT, facciona parte da gestão e inicia-se uma fase da administração totalmente sem identidade. Claro, pontos extremamente positivos sugiram daí. O Cine Piracaia, por exemplo, mostra isso. Exclusiva exceção (sic me!).

As alterações feitas no trânsito da cidade me parecem como os jogos da Seleção Brasileira na Copa de 1970. Todos os bairros foram afetados, direta ou indiretamente. E enquanto falávamos de uma ou outra rua com mudança de direção, não víamos as praças com mato alto, o parque Buracão sem investimentos, as escolas municipais com atraso na entrega de uniformes e a ausência de ações concretas para diminuição nos elevados índices de violência. Sim, um dia só nos demos conta de que um ou outro amigo desapareceu para sempre enquanto assistíamos jogos da Seleção Brasileiradepois que acordamos para a realidade da ditadura. E era tarde. A alucinação coletiva parece ter voltado, e com força.

A cegueira coletiva foi tamanha nesses últimos meses de mudança na engenharia de tráfego da cidade que até mesmo a arte de rua do talento chamado Alemão desapareceu das paredes do túnel da Fepasa, e ninguém se deu conta de que a tinta que hoje arbitrariamente censura a expressão pela arte do grafite tem as cores do partido do prefeito. Vivemos a cegueira branca a que se referiu Saramago em seu "Ensaio sobre..." Não enxergamos a ameaça de perda irreparável do Galpão Cultural e ignoramos o debate sobre a incumbência de abastecimento de água e coleta de esgotos da cidade.

Vejo cada vez mais amigos, alunos e ex-alunos despedindo-se. Não da vida, graças a Deus, mas da cidade, o que para amigos e familiares dói tanto quanto a morte. Um certo desânimo paira nesse ar que por menor que seja a umidade relativa é carregado por cinzas das queimadas ilegais de cana. Cinzas que parecem poeira radioativa, cujo efeito letal será sentido aos poucos. Cinzas que caem sobre a cabeça de todos, de juízes a promotores a ambientalistas e fiscais da Cetesb. Um exemplo dessa apatia coletiva? Dou, sim. E para mim, nesse interim, não há parâmetro melhor do que a opinião pública materializada no voto.

Se por um lado houve redução da vontade de governar a cidade, por outro houve diminuição na vontade de votar. Nietszche contemporâneo ratificaria sua teorização sobre vontade de potência. Nos fechamos nesse sentimento coletivo de amargura e deixamos de acreditar. Basta ver que elegemos EzioSpera, por duas vezes, com mais de 60% dos votos válidos. E nessa última eleição nem os candidatos a prefeito e vereador apoiados por ele chegaram lá.

Partindo desse parâmetro, que tenhamos na figura do novo prefeito eleito uma esperança de que a energia de sua juventude de 36 anos contagie a todos. Tudo bem, não houve consenso na eleição de 2012 em Assis, isso todos já sabem e refletiram nos encontros coletivos de socialização, sejam eles físicos ou virtuais. De repente, é da falta de aposta sumária que sai a boa gestão. E estamos esperando isso já há algum tempo. Talvez há 106 anos.


*Jornalista, historiador e professor universitário, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.


FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA

AUSÊNCIA
Fiquei o mês de setembro praticamente fora desse espaço, no Assicity, devido a compromissos de pesquisa acadêmica. De São Paulo a Fortaleza, depois Rio de Janeiro, depois Lisboa e, enfim, Paris, foram mais de 25 mil quilômetros percorridos dentro de avião. Mais de meia volta em torno do planeta em linha reta. Justificado.

ANIVERSÁRIO
Outubro é mês de aniversário do Assicity.com, de minha amiga e competente jornalista Bruna Fernandes. O portal de notícias já é a principal referência de informação online do Médio Paranapanema. De minha parte posso dizer com tranquilidade e orgulho que de colaborador assumo a condição de ter a honra de compor o quadro de colunistas do portal. Amigos e desconhecidos, por mim chamados, aqui, de excetos e raros leitores, comentam, criticam ou simplesmente lamentam conteúdos por mim postados. E isso, no dia a dia, nas relações interpessoais presenciais.

MEIO MILHÃO
O Jornal da Segunda Online também tem motivos para comemorar em outubro. A versão web 2.0 do jornal de esquerda atingiu na quinta, dia 18, a casa de 500 mil acessos. Essa estatística teria sido atingida antes, entre julho e agosto, caso o JSOL mantivesse a média de 2 mil acessos/dia apresentada no primeiro quadrimestre do ano. A audiência do site caiu muito, principalmente nos 60 dias que antecederam as eleições municipais, chegando a marcar menos de 500 visitas/dia.

MEDIDA INCERTA I
Não somos somente eu e Ronaldo Fenômeno que estamos brigando contra a balança. Meu amigo Flávio Cavinato, da equipe de fundação da agência de publicidade Quest e hoje na Cavinato Associados, não tem escondido o resultado de um esforço com foco na balança. Em dois meses ele diz ter perdido 22 quilos, o que dá a média de 2,7 kg por semana.

MEDIDA INCERTA II
Os camarões de Fortaleza, os chopes do Rio de Janeiro e os pasteis de Belém, somados aos bolinhos de bacalhau e aos pescados de Lisboa não foram suficientes para tirar-me o controle de peso nos últimos 45 dias. Retomando a rotina assisense baixei meu peso para a casa dos 95 kg. Nove quilos de gordura eliminados desde abril. No cardápio, redução a níveis mínimos de sal, açúcar e gordura animal, além da troca do jantar por refeição alternativa. E na medida do possível, ou seja, encaixando na agenda, atividades físicas como hidromusculação e caminhadas.

CORRIDA
E já que o assunto é entrar em forma, meu amigo Lúcio Coelho atingiu o ápice da forma. Percorreu 45 km desde o residencial Monte Carlos, em Assis, e a fazenda Tangará, em Florínea. Isso, em 4 horas e 33 minutos. O fotógrafo é maratonista e tem percorrido o país em competições.

MARATONA
Outro maratonista é Emílson Cavalcanti, da MCP. Dia 4 de novembro ele estará percorrendo os 42 km da maratona de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

GELADA
A queda de temperatura surpreendeu, nos últimos dias, a diretoria do Assis Tênis Clube. Com o retorno simultâneo do movimento de sócios e do calor, foi programado um período de manutenção no sistema de distribuição de água quente na sauna. Com a temperatura ambiente elevada a falta de água quente seria, teoricamente, menos sentida e reclamada. Mas, fez frio atípico para essa época do ano, o que surpreendeu a todos, sem exceção.

VALOR
A especulação de que a rede de lojas Americanas teria fechado contrato para também instalar uma filial em Assis aumentou as evidências de que o projeto de construção de um shopping de piso térreo vá sair do papel em 2014. No mega projeto, mais dois fastfoods: Habib’s e Burguer King.

AUSÊNCIA DE ESTADO I
Prefeitura, Unesp e outras organizações instalaram placas informativas no interior do Parque Buracão. São informações relacionadas a espécies da flora e da fauna, presentes naquele ecossistema. A ação de vândalos que frequentam o espaço não demorou muito. Pichações são vistas em pelo menos duas das placas.

AUSÊNCIA DE ESTADO II
Os pichadores, que de arte não têm nada, também deixaram suas marcas nas paredes do Museu de Arte Primitiva, que fica no complexo do Parque Buracão. Pinturas do artista Valdomiro de Deus, em arte naïf, foram irreversivelmente danificadas. Elas foram pintadas nas paredes externas do museu na década passada, durante estada de Valdomiro em Assis. O artista é admirador da arte de Ranchinho e foi catalogado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo por seu estilo único de registrar a cultura brasileira.

NAS TELAS
E por falar em arte, o jornalista assisense Rodrigo Bertolucci consolida-se cada vez mais no mercado editorial e de espetáculos no Rio de Janeiro. Ele assumiu em setembro o cargo de diretor da Bônus Consultoria, empresa que edita a revista Mais QRevista. Com algumas pontas em novelas da Globo, Rodrigo tem, também, aprimorado na teledramaturgia. Um teste dele pode ser visto no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=-rs2ImiPX4w.

CÁ ENTRE NÓS...
... e se os 15 mil eleitores ausentes tivessem ido às urnas?

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