22 de Setembro de 2019
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O lamento de Binato e seus fundamentos



Cláudio Messias*

Li, e não ouvi, a entrevista que o empresário João Antônio Binato deu a meu amigo e eterno parceiro de reportagens Alves Barreto, pela Cultura AM. Li porque o Jornal da Segunda Online transcreveu a entrevista em seus principais trechos. O destaque, por conta do jornalista Reinaldo Nunes, ficou para a possibilidade de Assis perder o Centro de Distribuição da Rede Avenida de Supermercados.

Aqui, no Assiscity.com, li pelos mesmos dias que João Antônio Binato poderia ser candidato a presidente da Associação Comercial e Industrial de Assis, sucedendo Name Sabeh. Cargo elegível para um suplente de deputado estadual que logo na primeira eleição pública que disputou quase, por muito pouco, deu a Assis a condição de voltar a ter um representante na Assembleia Legislativa do Estado. Para chegar a presidente da Acia, Binato precisa somar votos, ter a maioria, mesmo que seja candidato único.

Citei os três níveis de relação direta ao nome de Binato por um motivo simples: não acredito que João Antônio e seus irmãos retirem de Assis o Centro de Distribuição da Rede Avenida. As questões financeiras alegadas são fúteis perto de um fato diretamente envolvido nesse bojo: o capital político. Estou falando de um capital simbólico que João Antônio Binato tem. Não me refiro, pois, a qualquer outro Binato que tenha sido eleito ou tentado eleger-se no passado recente ou remoto de Assis.

Das três circunstâncias envolvidas, uma delas tem de não corresponder à verdade para que João Binato concretize a especulação de que retiraria o Centro de Distribuição de Assis. Conheço pouco, muito pouco desse empresário, mas o suficiente para saber que mentiroso ele não é. Já disse aqui, nessas linhas, que trabalhei com ele na Rede Super Marca, em Marília, uma central de negócios que reunia grandes grupos supermercadistas do interior paulista. Eu, assessor de imprensa. Ele, presidente.

Também aqui, nesse espaço, admiti que a vivência com João Antônio quebrou um paradigma. A imagem construída a seu respeito, envolvendo, conforme Carl Jung, arquétipos e estereótipos da comunicação, não correspondeu àquele presidente da Rede Super Marca com quem convivi. Sério, claro, mas não arrogante. Uma pessoa que conversa olhando nos olhos, não manda recado e cobra resultados. E tudo isso de maneira educada, condizente a um gestor que tem sob seu comando milhares de funcionários.

Foram somente seis meses de vivência e convivência. Nessa rotina de meio ano, ida a feiras como a Apas, na capital paulista, e a inúmeros eventos relacionados à Super Marca. O suficiente para ter uma dimensão do império chamado Rede Avenida e da representação que o grupo tem na economia de mais de uma dezena de cidades paulistas e paranaenses por onde espalha suas filiais.

Não estou, aqui, para rasgar elogios a João Antônio. Quem sacrifica preciosas piscadas de olhos fixando leitura nessas linhas que variavelmente aqui posto sabe muito bem que não é do meu feitio nem puxar saco, nem rasgar ceda, muito menos atacar com ou sem fundamento. Apenas escrevo, registro. Se alguém ler, legal. Se não lerem, tudo bem também. O calendário maia não será alterado e o mundo não deixará de acabar em 21 de dezembro por conta disso.

Igualmente, quem acompanhou meu trabalho na imprensa de Assis, nas idas e vindas para e da cidade para outras localidades, ao longo de duas décadas e três anos consecutivos, sabe ainda mais do meu perfil de jornalista. Processado judicialmente, com mais de uma dezena de reportagens escritas e jamais publicadas devido aos interesses hegemônicos das empresas jornalísticas locais por onde passei, construí o meu capital simbólico. Igualmente, fiz muitas besteiras também. Errei. E errei feio em algumas dessas vezes. E meu nome, pois, não está associado a falcatruas, esquemas ou simplesmente a reportagens fúteis. Se saía da redação para trabalhar, era para retornar com fatos, e não suposições. Ou seja, nunca precisei assinar um release, me apropriar de um texto que não era meu, durante todo esse tempo.

Mas o assunto, aqui, gira em torno de João Antônio Binato. Precisei, sim, justificar a você, raro e exceto leitor, o por quê de eu não acreditar na tormenta que gira em torno da saída do Centro de Distribuição da Rede Avenida de Assis. O respeito enquanto empresário. E dos bem sucedidos, pois se olhar para trás, nas últimas três décadas, o que vejo são supermercados que abriram, badalaram e... fecharam as portas em Assis. Nesse ínterim, um dos negócios que tiveram os dedos de João Antônio e hoje representam uma marca sólida é o Vitória, uma rede que nasceu em Assis e tem filiais em outras cidades. Vitória que um foi A Barateira, que concorreu com o Avenida, fechou e cujo gestor depois foi trabalhar... com João Antônio Binato.

A mágoa de João Antônio vem da nada razoável votação que seu filho teve para prefeito de Assis. Uma dor que, sei, bate igualmente em outro João, Rosa, vice-prefeito que apesar do bom capital político também teve inexpressiva votação nas urnas em outubro passado. Fossem candidatos somente eles e o eleito Ricardo Pinheiro e, todos sabemos, o desempenho nas urnas poderia ter sido outro. O desempenho, e não necessariamente o resultado. Mas, meu amigo, SETE candidaturas foi demais. E, João Antônio Binato, você me desculpe, mas Kiko Binato tinha a reeleição para vereador garantida. E, nesse ínterim, se houve um erro nessa história, esse erro foi ter insistido na candidatura de Kiko para prefeito. O eleitor e a cidade não erraram ao não elegê-lo. Até porque mais de 15 mil eleitores simplesmente não foram votar, um contingente que elegeria outra composição da Câmara se assim quisesse. A eleição como um todo, em 2012, tem de ser esquecida pela cidade.

Essa ira, que por sinal já deveria ter passado, é compreensível. Mas, para o bem do capital político de João Antônio, não pode passar de polêmica fútil. Até porque entra em rota de colisão de coerência para esse outro projeto político especulado, ou seja, assumir a presidência da Associação Comercial e Industrial local. Eu, que também já fui assessor de imprensa na Associação Comercial mais bem sucedida em um raio de 200 km ao redor de Assis, ou seja, a Acim, de Marília, sei bem que um gestor do setor comercial, que se propõe a representar a maior corrente econômica de qualquer localidade, não pode querer tirar da cidade uma fonte geradora de receita e tributos que corresponda às cifras citadas por João Antônio na entrevista a Alves Barreto.

Compete a um presidente de Associação Comercial prezar para que o setor cresça. E perder um Centro de Distribuição da magnitude do da Rede Avenida representa, hoje, a maior perda que a cidade de Assis pode imaginar, na contramão de conquistas significativas ocorridas nos últimos meses. Decidir por isso, portanto, não pode coincidir com o projeto de assumir a Acia. Eu, se comerciante fosse, jamais votaria em um candidato com tão bizarro projeto de transferir para Ourinhos um patrimônio que foi construído a partir do que a população de Assis consumiu ao longo de sofridas décadas de crise que o país passou. Portanto, eleitor é uma coisa, consumidor é outra coisa, totalmente diferente.

Mudanças no trânsito da cidade afetaram a todos. De eleitores a consumidores, cada morador de Assis teve de se adequar a uma nova cidade. Mas, João Antônio, as reclamações de um ano atrás deram, aos poucos, lugar a um cenário inverso. Não somente ouço, mas leio e compartilho de mensagens e postagens feitas por internautas assisenses ou da região, aqui no Assiscity ou nas redes sociais, reconhecendo que o trânsito de Assis teve mais resultados positivos do que negativos. Uma sinalização de que pode haver saldo positivo nisso é o setor de funilaria e pintura de automóveis, que teve drástica redução no movimento de recebimento de veículos com pequenas colisões implicadas de acidentes de trânsito.

Tradicionalmente, por ser morador na vila Santa Cecília, comprei e compro na loja da Rede Avenida da Dom Antônio, nas proximidades da vila Rodrigues. A mesma filial que João Antônio disse que pode fechar por causa do trânsito. Ele se refere ao bloqueio das passagens que cruzavam a avenida Dom Antônio, agora fechadas por canteiro central, forçando retorno por rotatórias. Mas, mesmo antes de o trânsito ter sido alterado eu já percebia movimento mais tranquilo naquela filial da Rede Avenida. Queda de movimento que, na minha opinião, coincide com outro mega-investimento de João Binato, ou seja, o Avenida Max, que fica na mesma avenida Dom Antônio. No meu caso, não deixei de comprar na outra loja, pequena. Mas se as pessoas o fizeram, foi para transferir o local de consumo, e não necessariamente para ir comprar no Amigão ou no São Judas, mas exatamente no Max. E não será a vinda do Wall-Mart ou da Americanas que fará piorar o sufocamento do trânsito na Dom Antônio. Cada coisa, cada realidade relacionada ao crescimento da cidade, no seu devido lugar.

João Antônio Binato continua sendo o nome político mais forte de Assis na atualidade. Mais forte, inclusive, do que o prefeito eleito Ricardo Pinheiro e do próprio filho, Kiko. É ele o atual suplente de deputado estadual do Médio Vale do Paranapanema. E tomar decisões radicais, nesse momento, como a de mexer na sede do Centro de Distribuição do Grupo Avenida, seria uma bobagem nada condizente aos mais de 20 mil votos creditados a seu capital político nas últimas eleições gerais dois anos atrás. Quase, mas por muito pouco mesmo, ele não se tornou o nosso representante na Assembleia Legislativa mais importante do país. Sua trajetória mostra que daqui a menos de dois anos as condições locais e regionais favorecem para que isso se concretize.

O momento, pois, é de colocar a cabeça em ordem, os projetos no papel e o capital político no patamar condizente à expectativa que a cidade de Assis lhe colocou. Amigão, São Judas, Wall-Mart, Americanas só vieram para cá porque fizeram pesquisa de mercado e concluíram pela viabilidade do negócio. A mesma pesquisa de mercado que a Rede Avenida fez para ir a cidades como Santo Antônio da Platina, Presidente Prudente e Ourinhos, cidades que não só não tiveram supermercados fechados pela presença do empreendimento da família Binato, como experimentaram crescimento do setor como um todo.

O que quero dizer é que, críticas e lendas à parte, o mercado consumidor de Assis só foi descoberto como potencial porque um dia os grandes que aqui estão tiveram o interesse despertado exatamente pela competência de gestão da Rede Avenida, um dos cinco mais respeitados grupos supermercadistas do país na atualidade. Se Ourinhos quer o nosso Centro de Distribuição, então eles que justifiquem ter, um dia, o que Assis já tem: solidez e qualidade de consumo. Não por acaso Assis está recebendo outros dois Centros de Distribuição, sendo um de artigos esportivos e outro de materiais de construção. É a vida que segue e não pode parar.

Passou da hora de a boca maldita existente e sobrevivente de gerações frustradas pelo passado reconhecerem que empresas que consolidam-se no mercado há décadas colaboram com o desenvolvimento, e não travam-no. Um dia falaram que a Nova América impediu a vinda da Coca-Cola para cá, da mesma forma que a Rede Avenida foi acusada de ter impedido o Sé de instalar-se aqui. Nesse último caso, o prédio onde seria o Sé fora erguido para ser alugado. E às vésperas da instalação do hipermercado a marca Sé foi comprada pelo Grupo Pão de Açúcar, que parou todo o projeto de expansão e descatou Assis. No lugar de um esqueleto de concreto largado ao lado da Unesp a cidade ganhou o Avenida Max e o Centro de Distribuição da Rede Avenida, um autocenter e a primeira franquia multinacional de fast-dood de sua história. E aí fica a pergunta: isso é travar o desenvolvimento da cidade ou contribuir? Eu tenho convicção de que é a segunda opção.

*Professor universitário, jornalista e historiador, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.


FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA

FORMATAÇÃO
No texto anterior essa coluna saiu fora de formatação. Tudo emendado, feito texto de Saramago. A comparação com o escritor português deve-se tão somente ao fato de o mesmo ter dito, em uma de suas passagens pelo Brasil, quando vivo, resistir ao "enter" do teclado que dá origem ao novo parágrafo. Falha minha, agora corrigida.

ÁGUA
Quem quiser tirar dúvidas sobre a legislação que incide sobre o uso da água tem duas fontes de consulta. No Estado, o decreto 50.667/2006. Em nível nacional, a resolução 274/2005 da ANVISA. Em ambas são estabelecidos critérios para cobrança por vasão de água em espaço público e responsabilidades por tal gestão.

CADA CASO...
Leitor amigo questiona por que Marília, que tem cinco fontes públicas de abastecimento com água, não fechou tais "minas", que na realidade são poços artesianos com vasão por pontos de distribuição. A pergunta tem origem a partir do caso da demolição da popular Mina da Cristalina.

... UM CASO
Acontece que em Marília os tais poços são administrados pelo DAEM, que é uma autarquia pública do município. Sua manutenção e, com o vigor da lei do uso da água, o controle de vasão e consequente custeio passam a ser feitos dentro de uma política de gestão dos recursos hídricos da cidade.

EM TEMPO
O prazo para adequação ao que estabelece a lei estadual de uso da água venceu em 2006, e não vencerá em 31 de dezembro de 2012 como eu disse na coluna anterior. A tolerância de cinco anos resulta de bom senso de quem fiscaliza, uma vez que mexe diretamente com a rotina e a cultura de milhares de pequenos proprietários rurais paulistas, a grande maioria deles isentos de cobrança mas obrigados a alterar a gestão de seus recursos hídricos.

FEDERALIZAÇÃO
A notícia foi tornada pública em 18 de outubro: a confirmação de Assis como Núcleo Avançado do Instituto Federal de São Paulo. Em 2013, com sede na Fema, serão formadas turmas em dois cursos técnicos: Administração, com duração de 3 semestres, e Manutenção e Suporte em Informática, em 4 semestres. Cada turma com 40 vagas, no período vespertino. Inscrições para o processo seletivo terminam nesse dia 28 de novembro.

PRESSÃO
Essa especulação existe há décadas, mas ganhou força nas últimas semanas: uma possível proposta para que a família Camargo venda o Sistema Cultura de Comunicação, formado pelas rádios Cultura AM e FM. Um grupo religioso estaria disposto a assumir o comando total da empresa. Que fique só no boato, pois a Cultura FM continua sendo a única sintonia do dial regional em que não se ouvem, das 7h00 à meia-noite, o sertanejo, o pagode e o funk, muito bem explorado por outras emissoras concorrentes.

PLANO B I
Acostumei ir a Bauru seguindo pela Raposo Tavares, depois Orlando Quagliato, João Batista Cabral Rennó e, enfim, Comandante João Ribeiro de Barros. Duzentos e dois quilômetros em duas horas e quinze minutos de viagem e quatro praças de pedágio, com o transtorno de trecho de pista simples e trânsito pesado entre o ponto referente ao final da Castello Branco e Bauru.

PLANO B II
Domingo passado levei meu filho mais velho para o vestibular da Fuvest, naquela cidade do sanduíche famoso. Fui pelo trecho já citado, mas, por estar na Instituição Toledo de Ensino, ou seja, próximo da saída para Marília, resolvi retornar por esse caminho alternativo. Uma hora e quarenta de viagem, 167 km de trevo a trevo, nenhum pedágio pago e velocidade autorizada de 110km/h. Mudei, claro, de costume e rota.

CÁ ENTRE NÓS...
...coisa feia ficar oito anos no poder e deixar a cidade nessas condições, não?

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