13 de Outubro de 2019
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As ocupações escolares: Um exemplo de luta pela Educação

A chamada reorganização escolar que o governador do Estado de São Paulo, do PSDB, Geraldo Alckmin, quis implantar na Educação de Base é um fiasco pela forma como está sendo tratada; não houve conversa alguma com alunos, professores, pais e toda a comunidade em geral.

Na tarde da última sexta-feira, 4, após longas semanas de embates do Governo e defensores da Educação Pública de qualidade no território paulista a reestruturação foi suspensa para o ano vindouro. Entretanto, o Governo só tomou tal atitude por conta do seu índice de popularidade ter caído ao longo destas semanas, e porque grande parte da população apoia a luta legítima de alunos e professores.

O governo Alckmin afirma que pretende retomar as conversas no ano que vem com todas as escolas para explicar o seu plano de reorganização.

Entretanto, não acredito que o governador do PSDB tenha boas intenções com a reorganização escolar. Um governo que não valoriza professores, não oferece estruturas adequadas para os docentes lecionarem e tampouco para que os discentes tenham interesse em aprender, não pensa em reorganizar o ensino de modo algum.

A proposta do governador é separar as escolas por ciclos, como Ensino Fundamental I que envolve alunos do 1° ao 5°, Fundamental II, com estudantes do 6° ano ao 9° ano, e por fim, discentes do Ensino Médio. O Governo alega que o aprendizado tende a ser melhor com a mudança. Entretanto, alguns pedagogos e psicólogos discordam da tese tucana.

O estudo, isolado de variáveis, foi tido como inadequado por muitos especialistas em pedagogia e entidades como Centro de Estudos e Pesquisas em Educação e Ação Comunitária (CENPEC), as faculdades de Educação da USP e UNICAMP e diversas outras ONGs.

Os especialistas contestam a segregação, pois é algo empobrecedor na formação dos jovens. A psicóloga e consultora educacional, Rosely Sayão, em entrevista ao portal de notícias Diário do Centro Mundo (DCM) explana que a interação entre idades distintas é um aprendizado.

As discussões à respeito desta questão são grandes. O fato é que a gestão do governador Alckmin foi autoritária, não dialogou com os alunos e professores, os maiores interessados na causa.

Diante disso, os estudantes, seus pais, professores e comunidade, além de órgãos sindicais resolveram apoiar a luta estudantil, que consistiu nas chamadas ocupações escolares que foi muito distorcida e enfrentada com veemência pelo governo tucano. E mais uma vez repito, que o Estado só desistiu da chamada reorganização neste ano após perceber a queda brusca de sua popularidade.

Relato da ocupação na Escola Clybas

Caro leitor, nos próximos parágrafos você vai se deparar com o relato do professor Ronaldo Cardoso Alves, que leciona no curso de História da UNESP de Assis. Ele explana a sua opinião acerca da política tucana em relação à Educação em São Paulo e também sobre a ocupação por parte dos alunos.

"Foi um privilégio estar com os estudantes que ocupam a E.E. Clybas Pinto Ferraz, localizada na região central do Município de Assis no dia de ontem, 3 de dezembro. Movimento discente originado como questionamento à implementação, por parte do Governo do Estado de São Paulo, da denominada ‘reorganização escolar’ que pretende fechar mais de 90 escolas públicas, além de transferir mais de 300 mil alunos de suas escolas.

Ao impor tamanha modificação na vida de tantas pessoas – alunos e suas famílias, professores e funcionários – o governador Alckmin e seu secretário da Educação omitiram-se em promover qualquer discussão anterior com a comunidade afetada, desprezando preceito básico em implantação de políticas públicas: o diálogo com o alvo dessa ação. A oportunidade de lecionar para esses estudantes decorreu do contato que alguns alunos da disciplina que leciono no curso de História, Prática do Ensino de História, têm com esses estudantes do Ensino Fundamental e Médio. Assim, conversamos rapidamente com os graduandos da turma e resolvemos transferir nossa aula, no período noturno, para à frente da escola. Uma lona foi estendida na calçada e pudemos nela sentar e conversar com os alunos, desde pré-adolescentes, dos 6° e 7° anos, até alunos do final do Ensino Médio. Acredito que uns doze a quinze estudantes participaram da aula, enquanto outros permaneceram na escola porque pertenciam à escala de preparo do jantar.

Junto a eles, participaram dois professores da escola que estavam na ocupação, além de cerca de quinze alunos de minha disciplina na graduação e professores de outras escolas (alguns que foram meus alunos na UNESP Assis, outros não).

Resumindo, estávamos num grupo de 35 a 40 pessoas, acredito. A aula teve como tema a relação da História com a vida, a necessidade de compreender a relação entre público e privado no estado democrático, a questão da cidadania e do protagonismo juvenil, a construção de uma escola voltada para a comunidade, à formação inicial e continuada de professores de História, as políticas públicas de educação do Estado de São Paulo e do Brasil, etc. Os alunos da escola participaram; alguns mais, outros menos, mas pensaram coisas muito interessantes, preocupando-se em relacionar o estudo da História não somente com o passado, mas compreendendo sua importância no presente. Percebi que eles sabiam que estavam fazendo história com suas ações. Que aquilo que realizavam poderia abrir a possibilidade de construir uma nova escola. Meus alunos da graduação conversaram com eles, apresentaram suas dificuldades na realização de seus estágios. Citaram exemplos de escolas que dificultam a entrada ou mesmo o desenvolvimento de estágios, algo que deveria ser natural para a escola que poderá ter aquele graduando como futuro professor em poucos meses, etc. Falei das dificuldades da formação de professores no Brasil, do distanciamento que a universidade tem da escola básica, etc.

Enfim, foi uma troca generosa de percepções a respeito da educação e da necessidade que todos temos de participar de um processo de transformação, a fim de que a escola, efetivamente seja pública e voltada para a comunidade. Fui convidado para visitar a escola ocupada. Tudo limpo: mato capinado, cozinha e banheiros limpos e com cartazes para preservação da limpeza, um grafite feito por um artista assisense chamado Alemão, numa das paredes da escola, próximo à quadra, que marca a ocupação. Vi também um cartaz chamando a atenção para a defesa da escola laica e, em alguns locais, a escrita da data que remonta o início da ocupação: 19/11/2015.

No final, adentrei o refeitório e os jovens estavam jantando. Organizados. Tudo limpo. Conversavam com tranquilidade. Vi uma escola diferente. Não falo somente do Clybas. Falo da instituição escolar. Algo diferente, pertencendo aos alunos, à comunidade. Sai pensativo: o que presenciei nesta tarde foi algo que nunca vi. Preciso aprender com isso. Será que nossos governantes, gestores, professores, demais funcionários e todos alunos aprenderão com isso? Precisamos nos abrir para o novo. Não fui lecionar. Fui aprender..."

A população deve pensar no caos educacional que estamos passando. A partir disso, devemos nos unir aos alunos e apoiá-los na luta estudantil. As ocupações nas escolas podem ser o começo de uma nova era para a Educação, e tudo isso partiu dos estudantes. O relato de Ronaldo mostra a lição de cidadania que os adolescentes da escola Clybas estão dando, e garanto que muitos outros estudantes de centenas de escolas ocupadas dão o mesmo exemplo.

Por: Eduardo Oliveira - Graduado em História, pela Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis.


Professor Ronaldo e alunos do curso de História da UNESP em conversa com estudantes da Escola Clybas


Eduardo Oliveira
professor de História, Filosofia e Ética e Cidadania Organizacional e estudante de Pedagogia
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