A rotina simples no Jardim Três Américas I, em Assis, guarda uma história incomum e profundamente humana. Aos 79 anos, o aposentado da Secretaria Municipal de Educação, Silvério Gandolfo Netto, carrega consigo uma trajetória marcada pela fé, pela poesia e por uma conexão construída ao longo dos anos com o Vaticano.
Apaixonado por escrever, Silvério encontrou na poesia uma forma de expressão ainda jovem. Foi aos 09 anos, ao aprender violão com o pai por meio de um curso por correspondência, que começou a se aproximar das palavras. A leitura constante abriu caminho para os primeiros versos, que passaram a surgir de forma espontânea.

A mudança do sítio para a cidade de Assis foi o ponto de partida para uma produção mais frequente. Décadas depois, já nos anos 2000, sua escrita ganhou um novo sentido: a religiosidade. Desde então, seus poemas passaram a ser dedicados à fé e foi justamente esse sentimento que o levou a ultrapassar fronteiras.
Sem qualquer formalidade, decidiu enviar suas poesias ao Vaticano. Escritas à mão, em português, as cartas carregavam não apenas versos, mas também esperança. E, para sua surpresa, vieram as respostas.
Ao longo dos anos, Silvério enviou correspondências para papas como João Paulo II, Bento XVI e Francisco, além do Papa Leão XIV. Cada retorno recebido se transformou em um símbolo de carinho e reconhecimento.
Mas, antes mesmo das respostas oficiais, havia um desejo ainda maior: compartilhar. Para ele, a poesia não foi feita para ficar guardada.
“É um prazer, é um gosto que eu tenho de, quando eu faço um trabalho, escrevo uma poesia, eu gosto de compartilhar com os amigos na praça. Às vezes eu tiro o xerox e saio espontaneamente nas firmas. Às vezes até ganho cachê do pessoal, eles me agradecem sem eu estar solicitando, é uma coisa espontânea. Porque eu faço a poesia e eu fico até triste de deixar escondida na gaveta e não mostrar. Eu sinto que a poesia não é só para mim, é para levar para outra pessoa”, conta.

Foi com esse mesmo espírito que ele decidiu escrever ao Vaticano pela primeira vez — movido mais pela fé do que pela expectativa.
“Foi uma questão de pensar positivamente. Eu pensei: vou mandar. Se eu conseguir receber uma resposta, vai ser um orgulho para mim. Eu escrevi assim: ‘Papa João Paulo II, se eu receber uma correspondência daí, eu vou me sentir como se estivesse abraçando essa carta, como se estivesse indo aí dar um abraço no senhor’. Era o mais próximo que eu podia chegar naquele momento”, relembra.
O gesto simples deu início a uma tradição que permanece até hoje. Silvério continua enviando suas cartas e recebendo respostas, que guarda com cuidado.
“Sim, continuo. Enviei para o Papa Bento, enviei para o Papa Francisco. Em todas as correspondências vem alguma lembrança. Dos outros vieram fotos. Agora, nesse último, veio a imagem de um presépio feito por um artista lá em 1955, em mosaico, no Vaticano. Eu guardo tudo com muito carinho”, afirma.

Entre lembranças e versos, ele também compartilha uma mensagem que carrega como filosofia de vida: acreditar, ter fé e deixar marcas positivas no mundo.
“É uma questão de acreditar na vida, de ter fé. A gente sabe que não é eterno aqui. Todos nós vamos partir um dia. Então eu levo minha vida assim: eu não quero morrer sem deixar lembrança. Eu quero viver sempre amando mais. Se um dia eu morrer, acredito que vou partir em paz”, conclui.
