A Copa do Mundo está em pleno andamento, e o Brasil, como sempre, mantém a postura de otimismo em busca do Hexa, a sexta estrela. As ruas pintadas, o comércio pulsando e o coração na boca a cada lance. É a euforia coletiva que só o futebol é capaz de proporcionar. No entanto, por trás dos aplausos efusivos e das lágrimas de emoção nas arquibancadas, nos barzinhos, na sala de casa, um intruso silencioso e devastador joga no contra-ataque, driblando a racionalidade da nossa população: a febre avassaladora das apostas esportivas, as chamadas BETs.

Instaurou-se no imaginário social a perigosa ilusão de que enriquecer ou garantir o sustento mensal é uma tarefa simples. Afinal, no país dos “milhões de técnicos”, quem não entende de futebol? É aí que se esconde um grande perigo. O esporte, marcado pela imprevisibilidade, foi transformado em um cassino de bolso de alta performance. E os números desse fenômeno não são apenas impressionantes; eles são alarmantes.

Segundo dados recentes do Banco Central, os brasileiros movimentam uma média assustadora de R$ 30 bilhões todos os meses em plataformas de apostas. Não estamos falando de dinheiro que sobre no bolso, mas de recursos que muitas vezes deveriam pagar o aluguel, o supermercado, a prestação do carro, a conta de água, energia, entre outras contas. O vício em apostas, chamado de ludopatia, deixou de ser um dilema individual para se transformar em uma crise de saúde pública e mental. O cérebro do torcedor, já bombardeado pela adrenalina natural do jogo, é capturado pelo ciclo vicioso do “quase ganhei”, gerando uma dependência psicológica que destrói famílias inteiras em silêncio.

Esse cenário ganha contornos ainda mais complexos quando analisamos o papel da mídia. Recentemente, o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar) e a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) emitiram uma recomendação crucial à CazéTV, principal detentora dos direitos de transmissão dos jogos da Copa este ano. O órgão pediu que o canal não incentive diretamente seus telespectadores a jogarem. É preciso destacar que não se trata de uma “caça às bruxas” ou de um ataque pessoal ao comunicador Casimiro Miguel, que hoje integra a holding da empresa ao lado de grandes empresários da LiveMode, mas sim de uma crítica construtiva e necessária à linha editorial adotada.

Comentaristas e narradores cruzaram a linha do entretenimento ao sugerir probabilidades, as famosas odds, palpites induzidos e direcionamentos de apostas em tempo real, surfando na vulnerabilidade emocional da audiência ao vivo. Sabemos que o modelo de negócios do futebol moderno vive de patrocínios dessas casas de apostas, que estampam camisas de clubes e financiam grandes emissoras. Contudo, naturalizar anúncios forçados e induções psicológicas quando o torcedor está com a razão anestesiada pela emoção é, no mínimo, uma irresponsabilidade social.

A engrenagem se torna ainda mais cruel quando cruzamos esses dados com a realidade socioeconômica do país. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), aproximadamente 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. O desespero financeiro faz com que muitos enxerguem nas BETs uma salvadora da pátria. E o resultado? Um mercado selvagem que lucra cerca de R$ 20 bilhões anualmente, extraindo riqueza justamente das classes menos favorecidas e aprofundando o abismo da inadimplência, prejudicando, inclusive nosso principal setor, o comércio. O dinheiro que entra nas bancas de apostas não volta para circular no supermercado, na loja, nos serviços, mas evapora para sedes fiscais no exterior.

Para agravar o quadro, a própria integridade do esporte está em xeque. O avanço das apostas trouxe consigo a denúncias de manipulação de resultados. O caso do meia Lucas Paquetá, investigado na Inglaterra por supostamente forçar cartões amarelos durante as partidas do ex-clube, o West Ham, acendeu um alerta vermelho global. Embora no campo jurídico o atleta tenha sido absolvido, as suspeitas recaem sobre centenas de outros jogadores contamindo a pureza do esporte. O futebol corre o risco de perder sua maior riqueza, a verdade que deveria acontecer dentro de campo.

É bem verdade que o Brasil deu passos importantes com a Lei 14.790/2023, que instituiu a chamada “Lei das Bets”, prevendo a tributação de 12% sobre a receita das empresas e restrições severas à publicidade com influenciadores, sob a fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Mas a legislação, por si só, é uma barreira de papel se não houver fiscalização implacável e coragem política. Em pleno ano eleitoral, sabemos que os debates estruturais e polêmicos como este costumam adormecer nos tapetes institucionais, anestesiados pelas campanhas políticas locais.

Não podemos nos dar ao luxo de esperar o fim do calendário eleitoral ou o apito final da Copa do Mundo para agir. É preciso debater, regulamentar com rigor técnico e, acima de tudo, educar a população. O futebol é patrimônio cultural da nossa gente, um espaço de celebração, amizade e paixão. Não podemos permitir que ele seja sequestrado e transformado em uma máquina de moer a saúde mental e o sustento do povo brasileiro. Que os nossos aplausos continuem indo para os gols na rede, e não para as armadilhas que empobrecem o nosso bolso.

Fernando Cândido de Paula é professor da Educação Profissional Paulista na E.E Rachid Jabur, Sociologia na E.M. Helena Pupim Albanez e mestrando em Ensino de História na UEM – Universidade Estadual de Maringá

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