Após o AssisCity noticiar o pedido da família pela transferência urgente de Renata Barreto Bastos, de 37 anos, moradora de Assis, para um hospital de referência em Marília, Barbara Calderan, amiga da paciente encaminhou à reportagem uma carta aberta relatando o que afirma ter presenciado durante as visitas ao Hospital Regional de Assis (HRA). No texto, ela descreve a evolução do quadro clínico de Renata, a rotina enfrentada pela família e faz críticas ao atendimento recebido durante a internação.
Confira a íntegra da carta aberta enviada à reportagem:
“Algumas pessoas estão se perguntando por que a Renata não tem acompanhante. Ela tem, porém não durante o dia todo.
A Renata é filha única. Perdeu a mãe, a avó e a tia na pandemia, pessoas que eram sua principal rede de apoio. Ficou apenas com o pai. Depois conheceu o marido, que hoje se desdobra para cuidar dela, do sogro, que é idoso, e ainda trabalhar, pois também tem um filho e ajuda a manter as despesas da casa.
A Renata pediu que não contássemos aos amigos sobre a situação dela porque, além da vergonha (que não entendemos o motivo), ela não queria incomodar ninguém. Até algumas semanas atrás, ela estava bem. Porém, a negligência foi tanta que ela foi perdendo, pouco a pouco, os movimentos, a coordenação do corpo e até mesmo a fala. Hoje, a Renata mal consegue falar e também está com dificuldade para deglutir.
Estive no hospital no dia 02/07, depois de descobrir que a Renata precisava de ajuda. Ao chegar lá, encontrei o marido dela desesperado. Ele dizia que estava perdendo a esposa. Nesse momento, chegou o médico responsável pelo atendimento. Perguntei o que realmente estava acontecendo com a saúde dela e como poderíamos ajudar. Ele respondeu que estavam fazendo tudo o que era possível.
Perguntei se não havia algum especialista que pudéssemos contratar para entender melhor por que a Renata estava naquela situação. Ele respondeu que não, que o hospital tinha todos os recursos necessários. Questionei também sobre a pele dela e se havia algum especialista que pudéssemos pagar para avaliar e orientar um tratamento. Novamente, ele respondeu que nada poderia ser feito e que já estavam cuidando.
Segundo o médico, a pele da Renata estava daquele jeito por causa de uma reação alérgica a uma medicação. Perguntei qual medicamento havia causado essa reação, mas eles não souberam informar.
Então perguntei se poderíamos fazer alguma coisa ou se apenas deveríamos sentar e esperar ela morrer, porque era exatamente essa a sensação que tínhamos. A Renata estava vivendo uma situação de negligência naquele hospital. Ela estava com as partes íntimas totalmente assadas, em carne viva, com muito sangramento. Sentia dores intensas na pele e chorava ao menor toque.
Também ouvi de uma médica, que acredito ser residente, que a Renata estava naquela situação porque não tinha acompanhante. Na mesma hora, o marido respondeu, chorando, que estava lá todos os dias, que dormia com ela, mas que durante o dia precisava trabalhar. Disse ainda que havia enfermeiras no hospital e que elas deveriam ter percebido a situação da Renata, ajudado na alimentação, na higiene e nos demais cuidados básicos.
A situação em que a Renata chegou é extremamente delicada. É, literalmente, um pedido de socorro.
Ao sair do hospital, avisei ao marido dela e ao médico que, se o problema era a falta de acompanhante durante o dia, isso estava resolvido. Eu e outros amigos pagaríamos uma pessoa para permanecer com ela durante todo o mês. Sim, pasmem: estávamos dispostos a pagar uma enfermeira para ficar dentro do Hospital Regional cuidando da Renata.
Também informei que voltaria à noite para cuidar dela, dar um banho digno, lavar e cuidar dos cabelos, pois há mais de uma semana eles não eram lavados nem mesmo penteados.
Quando retornei à noite, a Renata estava ainda pior. Ouvi de algumas pessoas que aquele não era mais o lugar adequado para ela e que necessitava de uma UTI.
Fui até a enfermeira-chefe e disse que não sairia dali sem falar com o coordenador do hospital. Falei que, se fosse necessário, chamaríamos a polícia, os vereadores da cidade e até a imprensa. Ela respondeu que chamaria alguém.
Poucos minutos depois apareceram a enfermeira-chefe e o coordenador do hospital. Mais uma vez, questionei a situação da Renata. Olhei para eles e disse: “Olhem para ela. Ela tem apenas 37 anos. Isso parece o estado de uma mulher de 37 anos? Ela é diabética, está toda machucada, e essas feridas não vão cicatrizar tão cedo. Além disso, podem evoluir para uma amputação.”
A enfermeira me repreendeu, dizendo que eu estava colocando medo na Renata. Eu respondi: “É para ela e para vocês terem medo. Olhem a situação a que chegamos.”
Depois disso, o coordenador pediu um monitor digital para avaliar melhor a situação da Renata, porque estava difícil verificar os sinais vitais.
Quando o monitor chegou, os dados mostravam: batimentos cardíacos em 60 bpm, saturação de 100% e pressão arterial de 7×3.
Ele disse que a saturação estava boa, os batimentos também, e que apenas a pressão estava baixa. Segundo ele, ela estava em uma escala de prioridade 3 e precisaria estar em uma escala 5 para conseguir uma vaga na UTI.
Novamente, questionei se aqueles batimentos estavam realmente normais. Perguntei se não estavam muito baixos. O coordenador e a enfermeira responderam que não, que, para uma pessoa em repouso, aquele valor era adequado.
Então retruquei: “Ela não está em repouso. Ela está acordada, tentando falar. Isso não indica que o coração dela está fraco?” Eles responderam que não.
Perguntei novamente sobre a pele. Dessa vez, ele disse que aquilo era comum em pessoas que fazem hemodiálise e têm problemas renais. Ou seja, já não era mais uma reação alérgica à medicação.
Mais uma vez implorei ao coordenador do hospital, pelo amor de Deus, que nos ajudasse, porque estávamos perdendo a Renata. Ele respondeu que pediria para o médico avaliá-la novamente.
Na manhã seguinte, a Renata foi levada para o NAR porque disseram que sua pressão havia piorado. Depois, começou a receber transfusão de sangue porque apresentou outra piora. Em seguida, foi entubada porque teve uma nova piora.
A Renata não está simplesmente “piorando”. Ela está sendo mal assistida. A pressão dela já estava baixa, ela já pesava menos de 40 kg, estava com diarreia havia uma semana e sem conseguir deglutir há dias.
Isso é descaso. É revoltante ver até onde chegamos dentro de um hospital que se apresenta como referência.
Eu sei que existem muitos pacientes e que talvez faltem profissionais de enfermagem para atender a todos. Mas nada disso é de graça. O Hospital Regional é um hospital estadual. Estamos em São Paulo, um dos estados com a maior carga tributária do país, e, mesmo assim, nossa saúde continua sendo tratada dessa forma.
Agora, tudo o que nos resta é rezar. Até mesmo uma transferência se tornou arriscada diante da gravidade da situação em que a Renata se encontra.“










