As imagens que chegam da missão Artemis II são, ao mesmo tempo, hipnóticas e inquietantes. Ver o ser humano retornar ao espaço profundo e observar, de longe, o nosso “ponto azul” flutuando no vazio absoluto, desperta um misto de orgulho tecnológico e melancolia existencial. É o triunfo do engenho humano, mas é também um lembrete visual de nossa extrema solidão e fragilidade.

​Lá do alto, não existem fronteiras, mercados de ações ou divisões de classes. Existe apenas a Casa Comum: o único lugar habitável que conhecemos em um universo vasto e, até onde sabemos, silencioso. No entanto, o contraste entre a perfeição da Terra vista do espaço e a realidade sistêmica aqui embaixo nunca foi tão gritante.

​O Paradoxo do Progresso
​Enquanto celebramos naves capazes de cruzar o vácuo, assistimos passivamente à manutenção de sistemas políticos e econômicos predatórios. É o paradoxo do século XXI: temos tecnologia para buscar recursos em outros planetas, mas permitimos que bilhões de seres vivos sejam sacrificados em nome do lucro de uma minoria ínfima.

​A pergunta que fica é: até quando? * Até quando aceitaremos que o conhecimento, fruto da inteligência coletiva da humanidade, permaneça concentrado nas mãos de poucos?
​Até quando as tecnologias de ponta servirão para ampliar o abismo social, enquanto a maioria da população global sobrevive com o mínimo?

​A Necessidade de uma Ecologia Integral
​A preservação ambiental não pode ser separada da crítica social. Como destaca a Carta Dilex Si do Papa Leão XIV, é imperativa a transformação dos sistemas sociais, políticos e econômicos. Não se trata apenas de conservar a natureza, mas de redesenhar uma lógica onde todos os povos sejam contemplados e a dignidade humana seja o eixo central.

​O progresso que não é compartilhado não é progresso; é exclusão.

​Um Convite à Mudança
​A missão Artemis nos mostra que somos capazes de feitos extraordinários quando focamos nossa inteligência em um objetivo comum. O desafio agora é aplicar essa mesma determinação para consertar o que quebramos aqui.

​Cuidar da Terra não é um ato de caridade; é um ato de sobrevivência. Se somos capazes de levar o ser humano à Lua, certamente somos capazes de construir um sistema onde a vida seja priorizada acima do capital. O mistério do universo é belo, mas a maior maravilha continua sendo a vida que pulsa neste pequeno planeta. Que o brilho da Lua não nos cegue para as sombras que ainda projetamos sobre a nossa própria casa.

Efren Saqueto é Assistente Social, tem MBA Gestão de Políticas Sociais e trabalha com famílias, servidor público há 11 anos na Prefeitura de Cândido Mota

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