Uma das netas do comerciante José Novaga, que tinha 85 anos de idade e no domingo faleceu, dia 19, dois dias depois de ser espancado em uma tentativa de assalto em seu estabelecimento na Avenida Armando Sales, na Vila Xavier em Assis, publicou uma emocionante homenagem ao avô.
No sábado, dia 18, ainda com esperança de sobrevivência, uma das netas de “Zé Novaga”, como era conhecido, divulgou uma homenagem ao avô. O texto ajuda quem lê a entender o quanto o comerciante falecido era querido.
“Eu tenho um avô que me chama de paixão desde que eu nasci. Eu tenho um avô que é corinthiano de coração e que ensinou seus filhos e netos a serem também. Eu tenho um avô que adorava passear de carro para constatar o quanto Assis cresceu e tem “uma murtidão de habitantes”. Eu tenho um avô que adora ir à farmácia se pesar, apesar de os ponteiros nunca superarem os 50 e poucos quilos. Eu tenho um avô que anda com um gorro na cabeça e o outro na sacola, só pra se prevenir de pegar friagem””.
Em outro trecho, ela cita: ” Eu tenho um avô que há quase 60 anos tem um bar e nele trabalha até hoje, porque, afinal, “se eu não abrir o Bar, eu morro”. Eu tenho um avô que no dia do meu casamento me abordou no caminho do altar pra me abraçar chorando, e emocionou a todos que estavam lá. Eu tenho um avô que durante minha infância inteira me ensinou que tomar sodinha com estomazil curava qualquer dor. Eu tenho um avô que não acredita que a terra é redonda, pois se fosse assim derramaria toda a água de sua superfície. Eu tenho um avô que tem o sorriso mais sincero que eu conheço, pois é desprovido de dentes. Eu tenho um avô que compra 4 jornais por dia e fica muito orgulhoso se alguém pede um emprestado pra ler. Eu tenho um avô que junto com minha vó garante a mesa cheia de gente e a família toda reunida aos domingos e datas festivas. Eu tenho um avô que vestiu terno e dançou valsa quando (eu) a paixão se formou na “facurdade”. Eu tenho um avô que sabe o quanto é amado e respeitado, porque a vida inteira lhe dissemos e demonstramos isso.”
Em outro trecho do texto escrito no sábado, dia 18, a neta conta as conseqüências do espancamento que levou o avô a morte.
“Eu tenho um avô que na manhã de ontem foi assaltado quando abria seu bar às 7h30 da manhã. Eu tenho um avô que foi covardemente espancado e deixado caído no chão até que um de seus fregueses o encontrasse. Eu tenho um avô que está no Hospital todo cheio de hematomas, sutura e nariz quebrado. Eu tenho um avô que aos 85 anos foi vítima de violência física e psicológica, quando ia fazer o que gosta e faz até aos domingos de manhã: trabalhar. Acredito que o cara que o agrediu sofre de um mal que acomete a muitos outros: a falta de amor. Com certeza o avô desse cara nunca lhe deu nem metade do amor que o meu avô me deu. Certamente, esse cara não se orgulha de suas lembranças familiares, porque elas não devem ter cor nem sabor. Posso apostar que esse sujeito cresceu sem ganhar beijos, abraços e aplausos da família quando declamava um poema na festinha da escola; que ele nunca brincou de cavalinho no lombo do seu pai; que sua mãe nunca o levou pra fazer piquenique nas férias; que sua avó nunca cozinhou seu prato favorito no dia do seu aniversário; que seus tios nunca se importaram se ele estava feliz ou se estava com algum problema; que seus primos nunca foram seus companheiros. Esse cara deve achar normal o ódio, a cobiça, o desamor. Para ele, a agressão, o roubo, a violência fazem parte do cotidiano. A realidade dele deve ser muito dura, estéril e vazia. Não acredito que a cadeia ou uma possível coça possam “salvar” esse cara. Mas acredito que só pode dar amor, aquele que recebe amor. E isso me consola: meu avô em breve vai se recuperar e continuar recebendo todo o amor que sabemos dar. Pois foi ele quem nos ensinou.”

Comerciante José Novaga
