
Por Ulisses Coelho
Os valores humanos e a tecnologia.
A tecnologia tem dado um exemplo muito curioso para o modo de viver contemporâneo. Analisar os impactos de uma idéia oculta que está implícita em todo avanço científico e tecnológico de nossos dias, pode ser a chave para o entendimento da grande crise de valores que vivemos constantemente.
Quando há o lançamento de um computador ou de um celular novo, automaticamente, o que foi superado passa a ser sucata. Aproveitam-se apenas os aspectos que não conseguiram ser melhorados na nova edição. Na telefonia móvel, isso fica muito claro quando percebemos que em todos os modelos lançados são dotados de alto-falantes. Como esse acessório é imprescindível e sofre poucas evoluções, repete-se ele sistematicamente.
A idéia oculta que precede todo avanço tecnológico é o de que foi ultrapassado deve ter, apenas, suas características atuais respeitadas, ou seja, sobrevive aquilo que estiver mais adequado com as exigências de um tempo. Charles Darwin, naturalista britânico, chamaria isso de evolução, pois somente os moldes antigos que se adaptam melhor à nova realidade é que resistem bravamente.
O mesmo se aplica à crise de valores que presenciamos no cotidiano. Não adianta querer retomar conceitos morais que já foram rejeitados pela sociedade, com a esperança de que eles podem ser a base de uma “re-moralização” de um ambiente que já os rebateu. É mais inteligente usar dos modelos antigos aquilo que ainda não foi superado.
Um exemplo é a noção de família. Ela sempre será (ou até hoje foi) uma parte muito importante da sociedade. Entretanto, não podemos nos basear em formatações antigas com papai, mamãe e filhinhos. Pode ser constituída por mamãe e filhinhos; papai e filhinhos; vovó e netinhos; enfim, família é um exemplo típico das transformações sociais. É burrice querer retomar coisas superadas, pois é preferível uma casa sem pai a um pinguço dando trabalho o tempo todo.
Os valores são reconstruídos o tempo todo. O filósofo Nietzsche pensa com bastante pertinência sobre a questão dessa eterna mudança de referências comportamentais. Sua opinião é a de que nessa corrente mudança moral, apenas as melhores idéias sobrevivem. Se rejeitada, então alterada. Não retomemos valores… Criemos os novos!
Ulisses Coelho