Todo peba carrega um mantra íntimo, secreto e inegociável: a culpa de um pedal insatisfatório nunca é dele. É da bike. Sempre será. Nada mais justo, afinal, admitir incompetência esportiva exige muito mais preparo físico e mental do que qualquer trajeto pesado.
A inveja das bikes alheias é uma experiência espiritual. O peba chega no ponto de encontro, ainda ajustando o capacete torto, e dá de cara com aquela nave espacial de carbono que pesa menos do que seu remorso. Ele observa, engole seco e pensa, com profunda convicção científica: “Se eu tivesse uma dessas, eu voava.”
Enquanto isso, sua magrela está ali, resignada, com o quadro rangendo como quem pede aposentadoria por invalidez. Um equipamento honesto, simples, perfeitamente alinhado com o desempenho do proprietário e, por isso mesmo, sempre alvo de ódio e acusações injustas. O peba monta nela e sente imediatamente que algo não colabora. “A relação tá pesada”, ele diz. E não está errado: está mesmo. Mas a relação que pesa é a dele com a realidade.
A situação piora quando o amigo aparece girando leve, sorridente, com o câmbio eletrônico fazendo tic tic igual a música de elevador. A bike desliza pela rua como se tivesse pacto com alguma entidade aerodinâmica. O peba observa essa visão celestial e chega à única conclusão possível: “Meu problema não é falta de treino; a péssima alimentação e a preguiça. Meu problema é que tenho a bike errada.”
Ele analisa tudo com olhar clínico: o quadro, as rodas, o peso, o barulho – ou melhor, a ausência de barulho, porque a bike do amigo não chia, não estala e não reclama. Diferente da dele, que faz mais ruído que geladeira velha em madrugada quente.
Mas o auge da humilhação acontece na subida. O peba sobe sofrendo, puxando ar como se fosse bônus, e a bike pesando. Pesando como culpa não confessada. Pesada como boleto no início do mês. Pesada como uma verdade inconveniente. Enquanto isso, o amigo sobe ladeira acima desfilando, e o peba interpreta o fenômeno com lógica irrefutável. “Eu até iria junto, mas minha bike não deixa.”
No final do pedal, ofegante, torto, com o quadril pedindo perdão e a dignidade abandonada no km 12, o peba desce da sua bicicleta e dá aquele tapinha no quadro. Não é carinho, é ameaça velada. Abre o Strava. Vê o desempenho. Sofre. Suspira. E reafirma, com a serenidade de quem vive na negação, que não é ele quem pedala mal… é a bike que não colabora.
E assim, protegido desse raciocínio brilhante e inabalável, o peba segue pedalando, sofrendo e culpando a única coisa que não pode se defender: a bicicleta. Afinal, para que serve a tecnologia a qual você não tem acesso, senão para justificar a sua falta de talento, de preparo físico e disciplina?
Nos vemos nas trilhas por aí (onde vou observar a sua bike melhor que a minha)
Renato Piovan – Peba assumido










