A insistência e a virtude.

Por Ulisses Coelho

Alguém sabe a receita para se fazer um sujeito a aprender algo que temos para ensinar? Em minha opinião, esse é o maior dilema dos nossos tempos, pois implica uma série de crenças infundadas. Será que se quer ensinar de verdade? Será que as pessoas desejam aprender? É possível estimular a ânsia de aprender em outrem? A vida acontece por receitas?

Talvez os pais e as mães contorçam seus neurônios para pensar: “Ora, todo pai quer ensinar seu filho”. A resposta para essa objeção é afirmar que os que querem educam, claro que exceto raríssimos casos. Os pais educam por terem a paciência de insistir até a criança entender aquilo que é considerado fundamental para sua formação.

Um exemplo de como a perseverança vale a pena é o ato de ensinar a escovar os dentes. As crianças ouvem desde seus primórdios cognitivos, há quem converse com o filho desde o útero, que é importante fazer a higiene bucal ao acordar; após as refeições e antes de dormir. A maioria delas desenvolve o costume de escovar os dentes. Você, responsável por algum menor, não se sente orgulhoso ao vê-las escovando os dentes, depois de anos de insistência, e percebe que valeu a pena?

Muitas vezes, em diversas situações formativas, tentam impregnar nas cabeças dos professores que eles devem ser insistentes como os pais. Essa postura acarreta inúmeros problemas, entre os quais: o professor não recebe um salário digno; não tem o vínculo afetivo de pai para filho em relação ao aluno e o ponto mais importante, o professor deve instruir o conteúdo formal de sua disciplina, educação vem de casa.

É importante que se faça a distinção entre instruir e educar. Escola ensina, os pais educam. Sobre carregar o professor com essa função que não é dele, compromete as duas formações humanas, pois o cidadã fica mal educado e mal instruído.

O professor Rubem Alves vincula a educação com a instrução formal, essa última costuma-se chamar de saber. Faz uma análise da palavra saber e encontra sua relação com a palavra sabor. Assim, recomenda que educadores e alunos encarem o empreendimento escolar “saboreando os saberes”. Sinceramente, não consigo visualizar a idéia de prazer, num ponto que se compare ao saborear, o aprendizado escolar. Entendo que toda ação de aprender deve passar, necessariamente, por um pouco de desconforto e dor, pois a ruptura com antigas formas de pensar e o apresentar-se para novidades não é algo tão amistoso assim. Claro está que o engano conceitual desse autor pontua-se em misturar, numa panela só, as noções de instrução e educação.

A escola deve insistir em afirmar que sua função social se realiza no fato de instruir. O problema é que não temos o costume de insistir, a não ser com nossos filhos ou com as pessoas que amamos. Por isso é bom lembrar do grande Aristóteles, que diz que a virtude é um habito que se adquire com a insistência.

Ulisses Coelho

http://filosofossuicidas.blogspot.com/

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