Assis, domingo, dia 30 de novembro. 4º Pedal Solidário. Havia sol no domingo. Sol, não: uma luminária cósmica. Parecia que o Universo terceirizou o serviço de iluminação e a empresa vencedora precisava oferecer um astro inteiro para cada ciclista. Quarenta quilômetros de areia, calor escaldante e subidas que tratavam a gente como massa de modelar. E lá estávamos nós, os heróis involuntários do pedal, movidos por teimosia, orgulho e um leve distúrbio de julgamento.
A paisagem? Linda. Natureza exuberante. Um cartão-postal pronto. Mas, sejamos honestos, ninguém lembra da paisagem quando está tentando convencer o pulmão a não pedir demissão. O que realmente salvou foram os pontos de apoio, esses oásis improvisados, onde água gelada e um sorriso valem mais do que qualquer promessa de vida eterna.
Além da força de vontade movida a teimosia, essa história de superação tem outros heróis involuntários: os cidadãos portadores de caixa de som na bike. Sim, essas figuras mitológicas que surgem do nada, sempre no pior momento da subida, trazendo consigo playlists construídas com a sensibilidade de um alarme de carro com defeito. Porque, claro, o problema não é o calor, a areia, a inclinação de 32 graus. O problema é suportar a música que parece ter sido composta por alguém que odeia o próprio ouvido.
E lá estou eu, pedalando e tentando me convencer que as dores nas pernas, costas, mãos e pescoço são psicológicas até que, de repente, surge a pessoa portadora do item de destruição auditiva. No momento em que o ritmo tenebroso começa a vibrar na atmosfera, sinto uma força ancestral nascer dentro de mim. Não sei de onde vem, talvez dos meus antepassados, talvez do desespero mesmo.
O fato é: ganho energia. Subo mais forte. Disparo. Viro praticamente um atleta profissional, movido pelo combustível mais poderoso da história do esporte: a necessidade urgente de me afastar daquela playlist agressora. Porque meu gosto musical, como todos sabem, é o único correto e o que importa. O resto é erro de criação.
E quando o cidadão da caixa chega perto, tocando aquilo que ele chama de música e o mundo chama de tortura aceitável, meu corpo se ilumina como se tivesse sido plugado na tomada do sol. Cada pedalada é um grito interno dizendo: “Por favor, universo, me deixe chegar longe o bastante para não ouvir nem o eco dessa coisa”.
Porém, a aventura de domingo valeu a pena. Pela natureza, pelo desafio, pelas histórias pra contar. Mas, principalmente, pela evolução atlética involuntária que só o terror sonoro é capaz de proporcionar.
No fim, descobri que não preciso de treino intervalado, suplementação ou bike de carbono. O que realmente me transforma num míssil humano é a aproximação de alguém tocando aquela mistura de ritmos que parecem água com óleo. Esse é meu gatilho de sobrevivência. Meu power-up. Minha fuga rumo à sanidade. Se a ciência quiser me estudar, estou à disposição, desde que o laboratório seja silencioso.
Nos vemos nas trilhas por aí.
Renato Piovan – Peba assumido










