O luto é um processo natural e esperado que ocorre após a perda de alguém ou de algo significativo para a vida de uma pessoa. É um processo de adaptação e reorganização emocional, cognitiva e comportamental, que pode levar tempo e envolver uma série de emoções, como tristeza, saudade, raiva, culpa e medo.
No Dia de Finados, celebrado nesta quinta-feira, 2 de novembro, milhares de pessoas se reuniram para homenagear seus entes queridos que já partiram. Seja indo ao cemitério para levar flores ou fazendo uma publicação nas redes sociais, essas pessoas encontraram formas de expressar seu amor e saudade por aqueles que já não estão mais presentes em suas vidas.

Para falar sobre este processo de enlutamento, o Portal AssisCity conversou com Camila Guilherme de Araújo, do Grupo de Acolhimento para Enlutados promovido pelo curso de Psicologia da UNESP de Assis, que trouxe várias reflexões a respeito da angústia causada pela partida de alguém.
Portal AssisCity: Como o luto é um processo individual?
CM: Inicialmente, é válido ressaltar que o luto é o rompimento de vínculo. Trata-se da reação diante de uma perda e do processo de construção de um novo significado para a vida sem a pessoa que se foi. Por isso, todo processo de luto é individual e singular. Cada pessoa reage ao luto à sua maneira, por exemplo, existem pessoas que extravasam toda a sua tristeza através do choro, assim como existem aquelas que, aparentemente, não demonstram nenhum sentimento de entristecimento. Todavia, isso não é um indicativo de que ela não esteja em profundo sofrimento. Além disso, cada pessoa leva o tempo que for necessário para recompor-se do choque da perda.
Em segundo lugar, destaca-se a vinculação do sujeito com aquele que faleceu. Isto é, a perda de um amigo próximo pode ser sentida com mais intensidade do que a de uma pessoa da família, e isso pode ocorrer devido à aproximação, à convivência, à forma como se deu a morte, dentre outros aspectos.
Portanto, é inconcebível julgar a forma como cada pessoa reage a uma perda em uma tentativa de homogeneizar os modos de sofrer pelo luto, visto que cada indivíduo possui uma subjetividade, uma história de vida e uma história do vínculo com aquele que se foi.
PA: Quais são os principais desafios do luto?
CM: Dentre os principais desafios enfrentados no processo do luto, pode-se citar, primeiramente, lidar com a forma como se deu a morte, pois muitas vezes ela se deu de modo repentino, inesperado ou violento e pode ter sido um evento traumático para a pessoa. Outro desafio, certamente, é lidar com a ausência daquela pessoa no cotidiano e ter que (re)construir uma vida sem o ente querido, visto que isso é doloroso e, muitas vezes, gera a culpa por estar vivendo sem ele.
Ademais, é desafiador lidar com a carga emocional do luto e com o turbilhão de emoções que ele traz: tristeza, angústia, raiva, arrependimento, saudade, etc.
PA: Como as novas tecnologias podem influenciar o luto? Existem riscos associados ao uso dessas novas tecnologias? Como você avalia?
CM: As mídias sociais trouxeram novos rituais do luto e novas formas de homenagear a pessoa falecida. Os enlutados, através de publicações de imagens da pessoa falecida no Instagram ou Facebook, de textos discorrendo sobre sua dor e sua saudade e de vídeos sobre “diário do meu luto” no Tiktok, podem encontrar acolhimento e reconhecimento do seu luto nas interações online.
Esses espaços virtuais abriram portas para que os enlutados pudessem falar e expressar seus sentimentos de alguma forma, visto que na “vida offline” pouco se fala sobre morte e luto; aqueles que ousam demonstrar sua dor pelo luto, são silenciados.
No mundo online, essa dor não é calada e os enlutados podem receber mensagens de acolhimento de pessoas do mundo inteiro e encontrarem outras pessoas que já passaram/passam pelo mesmo processo, ocasionando uma identificação que pode ser muito vantajosa nesse processo.
Por outro lado, o uso da Inteligência Artificial para “dar vida” (rir, sorrir, gesticular, expressar reações) à fotografia de uma pessoa falecida, pode gerar muito sofrimento ao enlutado, dada a realidade que a pessoa não está mais presente fisicamente.
Para mim, o uso das mídias sociais pode até atenuar um pouco, não completamente, a dor e ajudar na elaboração do luto, mas só quando usada de forma conveniente.

PA. Quais são as recomendações para lidar com o luto de forma saudável? Quais são os recursos disponíveis para ajudar as pessoas que estão em luto?
CM: Não existe um manual de como lidar com o luto. Porém, alguns recursos são importantes para conseguir atravessar por esse processo com apoio. Um deles é a psicoterapia individual, onde o enlutado poderá levar todas as suas angústias para um espaço de escuta e livre de julgamentos. Atualmente, a UNESP e a UNIP oferecem essa modalidade de atendimento gratuitamente nas suas respectivas clínicas de psicologia aplicada.
Por último, e não menos importante, grupos de acolhimento para enlutados são propostas muito interessantes e válidas, pois além de oferecerem esse espaço de escuta e acolhimento, também oferecem a identificação do luto e da dor entre os enlutados.
PA: Quais são as principais mudanças no luto nos últimos anos?
CM: Falar sobre o luto tem tido cada vez mais espaço dada a inserção massiva das mídias sociais no nosso cotidiano que, por sua vez, abrem espaços para que as pessoas falem, desabafem e troquem vivências no modo online.
Durante a pandemia da COVID-19, lidamos cara a cara com a morte e, consequentemente, o luto, vendo pessoas morrendo e familiares/amigos sofrendo intensamente nos hospitais, na internet, na televisão e nas próprias vidas. Sem dúvidas, esse momento nos fez repensar sobre todos esses aspectos que permeiam o viver, o morrer e o enlutar-se, e passamos a pensar mais na necessidade de cuidar da pessoa que fica.
PA: Como o luto é diferente para crianças e adolescentes?
CM: Abordar a temática do luto com crianças e adolescentes exige um manejo diferente; é necessário que tenhamos, além da sensibilidade, da empatia e do acolhimento, a atenção. Dependendo da faixa etária, a criança ou o adolescente pode não conseguir expressar verbalmente o que está sentindo (saudade, tristeza, etc.) e demonstrar de outras formas, como dificuldades de aprendizado e de convivência na escola, medo de dormir sozinho, isolamento, falta de interesse em realizar atividades prazerosas (brincar, por exemplo), dentre outros.
PA: Quando o luto é considerado patológico?
CM: Existem diversas problemáticas acerca da patologização do luto, ou seja, o luto patológico. O processo do luto é algo individual e singular e, além disso, não se trata de um processo linear e progressivo em que a pessoa só tende a “melhorar” ao decorrer do tempo e, caso não melhore, será considerado patológico e necessitará de medicação. Ao tratarmos de algo tão sensível e singular como o luto, não existe um prazo estipulado para “ficar bem”.
Em alguns casos, a perda de uma pessoa pode vir a desencadear uma série de transtornos, como a ansiedade e a depressão. Porém, alguns sintomas desses transtornos são semelhantes ao sentimentos que se pode ter no processo do luto (tristeza, desânimo, etc.), portanto, é necessário que haja uma avaliação criteriosa do psiquiatra e do psicólogo para que não ocorra uma medicalização desnecessária do paciente.

Você não está só!
Se você, ou alguém que conhece, precisa de ajuda neste momento delicado, procure o Grupo de Acolhimento para Enlutados. Os encontros acontecem todas as quartas-feiras, das 19h às 20h30, no CPPA (Centro de Pesquisa e Psicologia Aplicada). O telefone é o (18) 3302-5905.










