
[/left]* Alcindo Garcia
Há dois tipos de cidadãos neste país. Os endinheirados e os pobres. Cansado de ver pela TV pobres espalhados em macas pelos corredores de hospitais sucateados, enquanto os pais da pátria pegam jatinhos da FAB para se tratar no Sírio-Libanês, sinto revolta com tantas injustiças. Gostaria de escrever coisas mais lúdicas, poemas, por exemplo. Infelizmente não tenho o dom da poesia. Desde criança admiro os poetas. Gostaria de ter sido um deles. Eduardo Girão dizia que só os poetas e as crianças são capazes de ver nos pirilampos que iluminam a mata estrelas caídas do céu.
Tentei ser poeta. Em vão. A poesia já nasce com as pessoas. Só os poetas conseguem extrair de uma pétala de rosa uma história de amor. Meu primeiro poema foi um fiasco. Indisciplinado. Nasceu de uma traquinagem na infância, que já projetava no futuro o polêmico rabiscador que iria verberar contra as injustiças. Escrito a carvão, na parede do quarto, eu dediquei meus primeiros versos à Dalva, uma linda empregada que trabalhava em casa. Era criança, mas já achava a Dalva bonita. Um poema de amor à serviçal morena de olhos verdes? Nada disso.
Eu reagi. Ela me trancou na despensa sem janela, porque eu fugira da escola. Os versos que fiz a carvão na parede branca da despensa foram uma quadra-libelo, um protesto rimado, sobre o que eu julgava ser uma arbitrariedade e uma violência às liberdades individuais. Nem imagino os adjetivos marotos que usei! Eram versos de revolta, porque eu já devia ter o ardor panfletário de Guerra Junqueiro: “encarcerar a asa é encarcerar o pensamento humano”. A asa era a minha infantil liberdade que preferia pescar no riacho, no fundo da escola, a freqüentar as aulas da escolinha rural da Água da Aldeia. Devo ter carregado nas tintas. Ou no carvão. Solidários à serviçal, meus pais deram nota zero ao meu poema e pediram desculpas à Dalva. Meu primeiro poema, para mim, o mais lúdico e o mais vibrante protesto contra o cárcere privado.
Mesmo tendo que limpar a parede, a Dalva o fez com a maior alegria, cantarolando e olhando para mim com um sorriso sarcástico nos lábios e aquele brilho admirável nos olhos verdes. Com certeza não era por um amor nunca correspondido. Era pura pirraça contra um garoto rebelde. Felizmente recuperado. Como não sou poeta, os políticos que se cuidem. Até quando Deus quiser.
*Alcindo Garcia é jornalista. E-mail: [email protected]










