Para onde estamos indo?

Por Helder Modesto

Com tanta repercussão que o meio ambiente tem recebido ultimamente, poder-se-ia pensar o seguinte: que nós estaríamos mais à frente dessa lide somente para preservar algumas espécies, os recursos e a bonita diversidade da natureza. Infelizmente, as coisas não são tão românticas quanto parecem. De fato, muitos dos problemas ambientais que têm recebido mais atenção do público são ainda piores do que pensávamos – da destruição da floresta tropical ao derretimento das geleiras no Ártico.

Uma das preocupações correntes é com as diversas formas de espécies que começam a ser vistas somente por fotos, pois já foram extintas pelo homem, que Nietzsche dizia ser este o “mais cruel dos animais”. Banidas deste pequeno planeta para sempre, centenas de outras espécies aguardam o seu fim em breve, mas não está descartado o próprio homo sapiens, que terá que provar para si mesmo o epíteto que ele mesmo lhe deu (homo sapiens=homem que sabe), caso queira continuar a sua saga nesse terceiro planeta azul.

Ainda há quem ache a extinção de um animal como o belo lince ibérico não é grande coisa, e não teria muito a pensar sobre os eventuais efeitos sobre o planeta. Mas uma vez, portanto, só estaríamos a perder – principalmente devido ao nosso próprio desprezo para com o nosso meio ambiente – tanto da diversidade inspiradora da natureza, como poderia causar um serio desequilíbrio na cadeia alimentar do mundo. Quando desaparece um predador, a presa irá se multiplicar. Quando morre uma presa, o predador vai ver suas fileiras diminuir também. Muitas pessoas não conseguem perceber o quão interligadas todas as espécies do planeta realmente são. A coisa funciona mais ou menos como uma imensa orquestra. Retira-se um instrumento e logo se percebe o descompasso.

A terra viaja a uma velocidade de 108.000 quilômetros por hora na imensidão do espaço. Entretanto, não sabemos de onde viemos, para onde vamos, o que estamos fazendo nesse pequeno planeta, viajando com tantas outras espécies exóticas, distintas e maravilhosas. Não há sequer uma arvore igual à outra. Não somos o que o mercado e a mercantilização querem fazer de tudo e de todos, ou seja, homogeneização, redução das individualidades à padronização, estereotipias de gostos, pensar e sentir. Cada um de nós é uma singularidade irredutível.

Sábio seria aproveitar essa viagem, acompanhados por essa miríade de encantáveis espécies, imersos que estamos em tantos mistérios e belezas, celebrar o curto rito da vida que o cosmos nos legou. Aprender com a nossa própria fragilidade, com nossos limites, dividir essa dádiva com todos, e aprender a pensar com o dito de Sócrates o seguinte: que sabemos que nada sabemos. Sabermos da nossa ignorância não é o que o senso comum imagina. Mas o que nos constitui como humanos, que, apesar de muitos avanços, nossa estrutura cognitiva não supera a pergunta metafísica sobre o que somos. Só temos uma parca visão da ponta do iceberg, mas desconhecemos o que subjaz nas profundezas do inconsciente. Entretanto, o que ignoramos não é o que nunca vamos saber, mas que saberemos graças ao que jamais saberemos. É diferente. Isso poderia muito bem nos dar humildade, nos devolve a capacidade do “espanto”(Aristóteles) e da “admiração”(Platão) ante o que nos cerca, que nos atinge; nos faz pensar, refletir, coisas tão escassas em tempos de globalização, de coisificação e de despersonalização dos indivíduos.

Precisamos aprender a pensar, caso queiramos aproveitar melhor essa viajem, ou a terra seguirá sozinha, depois de devastada pelo próprio homem.

Helder Modesto – professor de Filosofia, ambientalista e escritor

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