Livros de autoajuda existem aos montes. Há pessoas que os procuram e compram com ansiedade quase frenética. Não sei se os leem; acredito que sim. O certo é que nesses tempos terríveis de insegurança material e espiritual, de dissolução de valores e desorientação, muitos se sentem psiquicamente desestruturados e passam a consumir avidamente livros dessa natureza, desesperados por encontrar uma luz, um guia, um caminho que lhes ajude a superar angústias e ansiedades e melhorar sua qualidade de vida.

Os autores de tais livros fazem a festa – escrever autoajuda tornou-se uma profissão altamente rentável, quando o escritor tem a sorte de se tornar sucesso de vendas. Nada escrevem de novo ou original. Apenas reciclam e repisam, com maior ou menor charme, o “óbvio ululante”: “receitas” do senso comum para bem viver, que apelam não raramente para uma fusão eclética e confusa de psicologismo barato, sabedoria popular e religiosidade natural.

Ao invés de ler livros de autoajuda e ajudar editores oportunistas e autores de qualidade duvidosa a ganharem dinheiro, prefiro enfrentar as ansiedades da vida com outras muletas menos óbvias. Ler poesia (para quem gosta) é uma excelente autoajuda, especialmente se for em voz alta. Equivale a uma oração religiosa, que também é uma forma eficiente de recompor o equilíbrio psíquico para os que têm fé.

Cantar também é uma ótima opção. Dedicar-se à ioga, meditação e relaxamento são outras boas práticas que ajudam a restabelecer o equilíbrio psíquico; não são, entretanto, práticas fáceis, exigem um empenho que nem sempre se consegue. Fazer exercícios físicos, andar, correr, são outras atividades indispensáveis para o combate a qualquer tendência depressiva.

Mas minha melhor receita, que passo ao leitor sem cobrar nenhum tostão, é correr na esteira, ouvindo o guitarrista Santana. Quando alguma variante do mal do século ameaça rondar-me, não tenho dúvidas, boto no aparelho o cd que mais curto desse artista, “Black Magic Woman”, e começo minha jornada dis-suatória.

Não há depressão que não melhore, nem ansiedade que não vire fumaça. Enquanto suo na esteira, ao ritmo, às vezes alucinante, às vezes mais calmo, mas sempre motivador da guitarra de Santana, a angústia some e eu me reequilibro e me pacifico comigo mesmo e com o mundo.

Começo a 5,5/6 km/h, ao som meio ligeiro de “Black Magic Woman”, aumento a velocidade para 6,5 km/h ao frenesi de “Flor D”Luna”, passo a 7,0 km/h assobiando junto o som que busca o infinito de “Europa (Earth”s Cry Heaven”s Smile)”, e finalizo a 7,5/8,0 km/h na intensidade máxima do desespero de “Brightest Star”. Grande Santana, que me ajuda a exorcizar os meus fantasmas e a restabelecer meu equilíbrio interior! Meu suor é a minha despressão! Esse é o mantra que me acompanha em minhas peripécias com a esteira.

É claro que o leitor não precisa necessariamente socorrer-se da guitarra de Santana. Poderá escolher outro instrumentista ou cantor de sua preferência, desde que tenha ritmo bem marcado e rápido; música lenta não consegue levantar a moral e superar a monotonia de fazer esteira.

Mas se a receita não der resultado, por mais adequada que seja a música, aí não tem jeito, leitor. A única solução será tocar um tango argentino, como no poema de Manuel Bandeira, ou correr para o psiquiatra ou o psicólogo e ficar freguês de uma daquelas pílulas da felicidade conhecidas como antidepressivos.

Por José Benjamin

[email protected]

Share.
???? Participe do canal do Assiscity no WhatsApp na região

NOSSOS COLUNISTAS