
*Alcindo Garcia
Já fui criança. Faz tempo. Felizmente ainda trago no íntimo minha porção criança. Morava no sítio, pés no chão, banho de rio. Água da Aldeia. Água límpida da mina que eu bebia na cuia das mãos. Repreensão em casa porque chegava sujo e molhado. Lembranças que não se apagam porque marcaram momentos felizes da minha vida. Brincava com as galinhas correndo atrás delas provocando um alvoroço no quintal, que envolvia o cachorro latindo atrás das aves e partilhando da brincadeira. Ouvia moda de viola e já observava os dedos ágeis do violeiro.
Gostava de ouvir rádio, rádio de pilha na falta da luz elétrica. À noite sentava na taipa do fogão de lenha para me aquecer. “Menino, sua tia está te esperando para ensinar as letras”, obedecia a ordem da saudosa mãe. Uma tia que morava conosco iniciara a minha alfabetização. Letras e rádio foram marcando uma história de vida.
Mas, a vida é feita de ciclos. Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não volta mais (que pena!) não podemos ser eternamente meninos, crianças. As coisas vão passando e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.
As letras da primeira cartilha, os sons do radinho à pilha foram marcando uma criança que foi crescendo, curtindo palavras e ouvindo rádio. Minha mãe ligava na Rádio Aparecida para ouvir o Padre Vitor. Ela colocava uma vasilha de água ao lado do rádio para ser abençoada pelo padre. Depois distribuía para cada um de nós.
As letras e o rádio cresceram comigo e se tornaram a matéria prima do meu trabalho, envolvendo fatos escritos e fatos narrados, que os moderninhos chamam de multimídia. Uma profissão na qual se pede que o profissional seja bastante observador. Minha primeira pauta foi em criança, quando ouvia os sons e observava os dedos ágeis do violeiro. Hoje, pelas manifestações de rua observo que o Brasil está acordando. Tomara que o gigante pela própria natureza, que tem memória curta, não volte a dormir em berço esplêndido.
*Alcindo Garcia é Jornalista. E-mail: [email protected]










