Final de ano é tempo de balanço, reflexão e decisões importantes. Algumas pessoas fazem promessas espirituais. Outras organizam a vida financeira. O peba leva s aua bike para o mecânico, para aquela revisão e manutenção. Não por zelo, mas por culpa.

Existe um momento sagrado no calendário do ciclista: aquele em que ele olha para a bike, coberta de lama, rangendo como porta de casa abandonada, e sabe que aquilo não é desgaste natural. É abuso. A revisão de fim de ano não é manutenção, é um pedido de desculpas.

Levar a bike ao mecânico em dezembro é um gesto que pode ser considerado bonito. Você não está consertando uma bicicleta; está garantindo o Natal de uma família inteira. Cada barulho ignorado ao longo do ano vira um item no orçamento: corrente, cassete, pastilha, rolamento, dignidade. Tudo gasto. Tudo meu.

O mecânico olha para a bike em silêncio. Não julga. O julgamento é técnico, frio e caro. Ele gira a roda, escuta o estalo, suspira fundo, aquele suspiro de quem acabou de perceber que o peru da ceia será maior este ano.

“Dá pra rodar assim?”, pergunto, já arrependido. “Dá”. Responde ele, com a mesma entonação de um médico dizendo que “até dá pra viver”, antes de listar 14 exames.

A verdade é que o peba trata a bike como trata o próprio corpo: só procura ajuda quando começa a doer de verdade. A gente pedala no limite da mecânica, da física e do bom senso. A revisão anual é o momento em que todas essas escolhas erradas se encontram num balcão de oficina.

Enquanto isso, o mecânico faz contas mentais. Ele não fala em valores, fala em “coisas simples”, “só um ajuste”, “já aproveita e troca isso aqui”. Cada “aproveita” custa uma fatia do suado salário. Mas tudo bem. É Natal. É tempo de partilha. Principalmente do meu dinheiro.

Saio da oficina mais leve. Não fisicamente (isso nunca acontece), mas espiritualmente. A bike fica. O mecânico sorri. Em algum lugar, uma criança ganha um presente melhor. Um panetone sobe de nível. Um espumante deixa de ser nacional.

E eu volto pra casa com a sensação de dever cumprido. Porque, no fim das contas, o espírito natalino é isso: paz, esperança e a certeza de que, se o ano foi duro pra você, foi pior ainda pra sua bike.

E pelo menos o seu mecânico de confiança terá um Natal mais “gordo”.

Nos vemos nas trilhas por aí.

Renato Piovan

Peba assumido

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