Há semanas em que a natureza resolve prestar um serviço público de grande utilidade social. Essa, pelo jeito, vai ser assim. As previsões apontam chuvas em praticamente todos os dias, o céu vai permanecer fechado, o chão virou barro e, de repente, instaurou-se uma espécie de armistício silencioso entre o peba e a bike. “São as águas de março, fechando o verão (…)”.
Para quem vive sob a constante pressão moral de dizer que pedala, mas nem sempre com a mesma disposição para realmente pedalar, uma sequência de dias chuvosos representa algo próximo de uma anistia meteorológica. A chuva não é apenas água que cai do céu; para o peba ela é argumento, justificativa e, principalmente, libertação temporária de compromissos esportivos que ele mesmo inventou.
A verdade é que existe uma expectativa social em torno do ciclista. Uma vez que o sujeito começa a pedalar, passa a carregar consigo uma espécie de reputação atlética que precisa ser mantida, nem que seja no discurso. Surgem nos grupos de WhatsApp os convites para um “giro leve”, as sugestões de trilha no fim da tarde ou aquele tradicional chamado matinal que aparece no celular antes mesmo do sol nascer: “Bora pedalar?”.
Para o ciclista disciplinado, isso é motivação. Para o peba, é quase uma notificação de ansiedade. Ele até gosta da bicicleta, gosta da ideia de pedalar, aprecia as fotos depois do pedal e os comentários entusiasmados dos colegas. O problema é que, entre gostar da ideia e sair de casa com o corpo ainda pedindo cama, existe uma distância que nem sempre a força de vontade consegue atravessar.
É nesse ponto que entra a chuva, com sua eficiência silenciosa. Quando o céu está carregado e a previsão promete água o dia inteiro, ninguém precisa discutir muito. A estrada de terra vira lama, a trilha fica escorregadia, o vento sopra frio e a bicicleta permanece encostada na garagem, limpa, seca e devidamente respeitada. Não é preguiça; é prudência. O peba passa a circular pela casa com uma serenidade quase científica, observando o clima pela janela e analisando as condições do terreno como um meteorologista esportivo improvisado. A conclusão, invariavelmente, é a mesma: “Desse jeito não dá”.
Enquanto lá fora a chuva cumpre seu papel de irrigar jardins, encher reservatórios e salvar plantações, dentro de casa o peba também desenvolve atividades que considera produtivas. Há o café tomado com calma, a reorganização mental de planos de treino que certamente começarão na próxima semana e pequenas tarefas domésticas que ajudam a manter a consciência tranquila. De vez em quando ele passa pela bike, olha o quadro, aperta o pneu e faz um comentário técnico para si mesmo, como se estivesse avaliando um equipamento de competição. No fundo, sabe que aquele descanso forçado não deixa de ser conveniente.
Assim, entre um dia cinza e outro, a semana vai passando sem culpa. A chuva cria uma pausa, um intervalo inesperado na rotina de quem vive prometendo que amanhã vai pedalar mais. E o peba aceita essa pausa com a humildade de quem entende que, às vezes, o melhor treino é justamente aquele que a natureza cancela. Afinal, na complexa filosofia do ciclismo peba, pedalar é importante, mas encontrar boas justificativas para não pedalar também faz parte do esporte.
Nos vemos nas trilhas secas por aí
Renato Piovan
Peba assumido










