O início dos anos 2000 trouxe consigo uma promessa sedutor, o avanço tecnológico seria a chave para reduzir o esforço humano e ampliar nossa qualidade de vida. Acreditava-se que máquinas e algoritmos assumiriam o trabalho pesado, presenteando-nos com o bem mais precioso do nosso tempo: a ociosidade. Contudo, a realidade do Brasil atual revela um cenário oposto. Em vez de libertação, testemunhamos uma intensificação do trabalho impulsionada por uma lógica de produtividade ininterrupta e consumo acelerado. O que era para ser progresso tornou-se uma ferramenta de disponibilidade permanente, onde indústrias e serviços operam 24 horas, exigindo que o trabalhador acompanhe um ritmo acelerado e desumano.

Essa exaustão não é um acidente de percurso, mas o reflexo de uma estrutura profunda, a colonialidade. Embora o Brasil tenha conquistado sua emancipação política de Portugal, rompendo o laço jurídico do colonialismo há mais de 200 anos, a lógica colonial permanece latente na hierarquização étnico-racial e social que dita quem deve ser exaurido. A luta decolonial no presente é, fundamentalmente, um engajamento crítico contra esse “sistema-mundo” que ainda silencia as populações marginalizadas. A dívida histórica com esses grupos não se quita apenas com indenizações, mas com a garantia de voz, direitos e, sobretudo, dignidade no cotidiano laboral.

A história dos direitos trabalhistas no Brasil é um testemunho de que avanços nunca foram concessões espontâneas, mas frutos de tensões e lutas sociais. O fim da escravidão, marco civilizatório fundamental, ocorreu sem políticas de inclusão, o que perpetuou desigualdades estruturais que vemos até hoje. Mesmo conquistas como a CLT, no governo Vargas, ou o 13º salário, com Jânio Quadros, surgiram da necessidade do Estado em mediar conflitos entre capital e trabalho. Hoje, ao discutirmos o fim da escala 6×1, estamos na verdade questionando a manutenção desse silenciamento histórico imposto aos mais vulneráveis em nome de uma economia que parece nunca estar satisfeita.

Atualmente, o avanço da chamada “uberização” agravou esse cenário, com dados do IBGE apontando um crescimento na informalidade e na precariedade. Sob o pretexto de uma “liberdade” de horários, trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas e instabilidade constante, sem as garantias básicas que a CLT outrora prometeu. Em um país de abismos sociais, a proposta de flexibilização total muitas vezes se traduz em imposição onde o trabalhador aceita condições desfavoráveis não por escolha, mas por absoluta necessidade de sobrevivência. É a tecnologia sendo usada para aprofundar a exploração e não para subvertê-la.

Sempre que a pauta da redução da jornada ou da melhoria de direitos está sendo discutida, surge o discurso demagógico de que a “economia será afetada”. No entanto, essa narrativa ignora que a busca incessante pelo lucro muitas vezes impede que ganhos de produtividade se convertam em bem-estar social. Defender modelos externos de flexibilização, como o dos Estados Unidos, sem considerar a realidade da renda média e da proteção social brasileira, é uma forma de ignorar as condições concretas do nosso povo. A eficiência de uma nação não deveria ser medida pela exaustão de sua classe trabalhadora.

Experiências internacionais mostram que outros caminhos são viáveis e lucrativos. Países como Reino Unido e Islândia testaram modelos de jornada reduzida, como a 4×3, e obtiveram resultados positivos – redução do estresse, aumento da satisfação e manutenção ou até elevação dos níveis de produtividade. Esses dados provam que reduzir o tempo de trabalho não é sinônimo de prejuízo econômico, mas sim de uma reorganização mais inteligente e humana das atividades produtivas. O bem-estar social e o desenvolvimento econômico podem, e devem, caminhar juntos através de políticas públicas estruturadas.

O Estado Democrático de Direito tem o dever de atuar como o garantidor desse rompimento com a lógica imperialista e eurocêntrica que vê o trabalhador apenas como uma engrenagem descartável. Se a tecnologia tem o potencial de melhorar vidas, cabe à sociedade brasileira decidir se ela servirá para esse propósito ou se continuará a alimentar um modelo de exploração em esgotamento. O debate sobre o fim da escala 6×1 é, portanto, um debate sobre que tipo de país queremos construir, um que preserva privilégios históricos ou um que finalmente oferece dignidade aos que sempre foram silenciados.

No fim das contas, a construção de um Brasil mais justo depende de escolhas coletivas sérias sobre trabalho e direitos. Não podemos aceitar que o novo “rosto” da exploração seja pintado com as cores da modernidade tecnológica enquanto mantém as correntes da colonialidade. Dignidade não é um luxo, mas fundamento básico de uma nação que deseja ser verdadeiramente soberana e livre. É hora de transformar o silêncio em voz e o cansaço crônico em cidadania plena.

Fernando Cândido é professor, jornalista e colunista do Portal AssisCity.

Compartilhar.

NOSSOS COLUNISTAS