
*Por Alcindo Garcia
Já fui do ramo, não aguentei, voltei para o rádio. Na TV o pandemônio começa no jornalismo, onde todos são obcecados pela urgência. Vivem correndo pela redação e sempre alterando a ordem das matérias. Os textos têm que ser feitos em cima da hora – mesmo quando a matéria é requentada. O pânico não pára, inclusive durante o programa. Em geral, os apresentadores não são de fato produtores de programas, embora muitos deles imaginam que são. Os estúdios ficam em recintos parecidos com hangares, maquiados com aspecto futurista, cheio de mesas com computadores. Noventa por cento daquilo que você vê é de papelão.
O câmera-man fica numa posição fixa. É ele quem comanda as tomadas. O assistente de câmara é o sujeito que aspira um dia chegar a ser câmera, mas que por enquanto terá que se contentar em arrastar o tripé da câmera. Os operadores de áudio têm uma perspectiva do mundo bizarra e mal interpretada. Usam fones e sacodem um microfone tipo girafa, direcional altamente sensível em formato de canudo. Eles podem ouvir com incrível nitidez todos os sons que vêm da direção para a qual está inclinado o microfone. Mais nada. Tornam-se então estranhamente sensíveis a ruídos que somente eles podem ouvir. “Temos de repetir a cena”, dizem. “Havia uma formiga andando”.
Os iluminadores não param, movem-se e acendem seus dispositivos de acordo com as instruções do câmera. São especializados em horas extras e confusão. Nas entrevistas coletivas os iluminadores se esmeram. Transformam o ambiente numa sauna insuportável com seus holofotes acesos, e se esmeram os que iluminam melhor o entrevistado, mesmo cegando-o. É por isso que você vê alguns entrevistados piscando adoidado.
As equipes de filmagem variam de tamanho segundo o tipo do programa. Para cenas de guerra, são destinados apenas dois homens, que são enviados para o front. Numa novela, quando tem cena de suposta nudez, geralmente se vê uma equipe gigantesca. Incluem-se aí o pessoal de guarda-roupa, maquiagem, carpinteiros, pedreiros, cenógrafos, entregadores de memorandos, office-boys, projetistas, chefes de transportes, motoristas, chefes de operações cênicas e chefes de manutenção. Nessas cenas o número de profissionais poderá chegar a setenta.
* Alcindo Garcia é Jornalista. E-mail:[email protected]










