Brasil, líder no consumo de agrotóxico

*Henrique Belinotte

Na ânsia de buscar competitividade e mesmo melhores resultados na produção, os agrotóxicos são os grandes vilões da contaminação dos produtos agrícolas.

O resultado foi divulgado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em dossiê lançado durante o primeiro congresso mundial de nutrição que aconteceu no Rio de Janeiro.

Na verdade, há três anos o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de consumo de agrotóxicos no mundo. Um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contaminado pelos agrotóxicos. Essa é uma posição que jamais o Brasil deveria ocupar, apesar da busca incessante pelo crescimento e auto suficiência.

Sem dúvida, um dado assustador e que obriga as autoridades a buscarem mecanismos para diminuir o quadro que se torna a cada dia mais assustador.

E os números não mentem. Podem até ser alterados, mas retratam sempre uma realidade existente. Pelas informações levantadas por diversos organismos ligados ao setor agrícola, nos últimos dez anos o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, enquanto o brasileiro aumentou 190%. Em 2008, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e assumiu o posto liderança, representando uma fatia de quase 20% do consumo mundial de agrotóxicos e movimentando, só em 2010, cerca de US$ 7,3 bilhões – mais que os EUA e a Europa.

E as informações e constatações não param por ai. Segundo dados da Anvisa e da UFPR, na última safra (2º semestre de 2010 e o 1º semestre de 2011), o mercado nacional de venda de agrotóxicos movimentou 936 mil toneladas de produtos, sendo e 246 mil toneladas importadas.

No ano de 2011 houve um aumento de 16% no consumo que alcançou uma receita de US$ 8,5 bilhões. As lavouras de soja, milho, algodão e cana-de-açucar representam juntas 80% do total das vendas do setor.

De se observar que na safra de 2011 no Brasil, foram plantados 71 milhões de hectares de lavoura temporária (soja, milho, cana, algodão) e permanente (café, cítricos, frutas, eucaliptos), o que corresponde a cerca de 853 milhões de litros de agrotóxicos pulverizados nessas lavouras, principalmente de herbicidas, fungicidas e inseticidas. O consumo em média por hectare nas lavouras é de 12 litros por hectare e exposição média ambiental de 4,5 litros de agrotóxicos por habitante, segundo o IBGE

Também outro aspecto assustador diz respeito a produção de hortaliças. Em 2008, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), o consumo de fungicidas atingiu uma área potencial de aproximadamente 800 mil hectares, contra 21 milhões de hectares somente na cultura da soja.

Trata-se de um quadro preocupante de concentração no uso de ingrediente ativo de 22 fungicidas por área plantada em hortaliças no Brasil, podendo chegar entre 8 a 16 vezes mais agrotóxico por hectare do que o utilizado na cultura da soja, por exemplo.

Numa comparação simples, o estudo estima que a concentração de uso de ingrediente ativo de fungicida em soja no Brasil, no ano de 2008, foi de 0,5 litro por hectare, bem inferior à estimativa de quatro a oito litros por hectare em hortaliças, em média. Pode-se concluir que cerca de 20% da comercialização de ingrediente ativo de fungicida no Brasil é destinada ao uso em hortaliças.

Nota-se que as evidências científicas também apontam para os aspectos relacionados a saúde humana, em virtude da exposição aos agrotóxicos por ingestão de alimentos. Os especialistas afirmam que o consumo prolongado de alimentos contaminados por agrotóxico ao longo de 20 anos pode provocar doenças como câncer, malformação congênita, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais.

Por fim, um outro fator extremamente grave: a constatação de contaminação de agrotóxico no leite materno, com sérias consequências para um recém-nascido ou um bebê que está em fase inicial de formação. A criança, sendo altamente vulnerável para esses compostos químicos. corre riscos graves na sua formação.

É certo que parte dos agrotóxicos utilizados tem a capacidade de se dispersar no ambiente. No entanto, a outra parte pode se acumular no organismo humano.

Sem dúvida, esses dados apresentados durante esse encontro apontam que medidas precisam ser adotadas e rapidamente. Está clara a necessidade de se realizar uma revolução alimentar e ecológica no país, visando colocá-lo dentro dos patamares aceitáveis.

Enquanto se discutem outros assuntos, a utilização de agrotóxicos continua aumentando e plantando para o futuro uma geração totalmente comprometida fisicamente.

Está claro que há necessidade de se proibir a venda e utilização de agrotóxicos já banidos em outros países e que apresentam graves riscos à saúde humana e ao ambiente assim como proibir a pulverização aérea de agrotóxicos. Medidas imediatas que atenuariam a situação existente. Ainda, controlar e exigir a participação do governo no sentido de não conceder financiamentos e empréstimos para quem usa de tal expediente.

Por, nota-se que a população precisa obter informações precisas e iniciar um trabalho rápido de conscientização, para que não sejamos uma geração doente e sem perspectivas num futuro próximo.

*HENRIQUE H. BELINOTTE

Advogado do Escritório Belinotte & Belinotte advogados

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