Existe o ciclista raiz. Existe o ciclista Nutella. E existe o peba: aquele ser humano que acorda às 5h da manhã num domingo para sofrer voluntariamente, tirar foto suado e escrever “gratidão” na legenda como se tivesse escalado o Everest de chinelo. É assim que funciona: o peba não pedala. O peba performa.

E como toda seita organizada, o peba tem seu próprio idioma. Um dialeto técnico-campestre-masoquista que confunde a família e afasta amigos sedentários. Eis o “Dicionário Básico do Peba Contemporâneo”, versão comentada por quem já ficou para trás no aquecimento:

Alinhamento – Ritual místico realizado na largada. Consiste em escolher um lugar estratégico para fingir competitividade antes de ser ultrapassado por um senhor de 72 anos.

Aquecimento – Mentira coletiva. Ninguém aquece. Todo mundo sai se enganando a 30 por hora e descobre o erro no primeiro morro.

Bate-volta – Expressão usada para definir 60 km de sofrimento. “É só um bate-volta.” Só se for até o inferno e retornar com carimbo.

Caramanhola – A garrafinha que o peba esquece de lavar e que desenvolve vida própria. Algumas já possuem um ecossistema mais complexo que o Pantanal.

Cãibra – Entidade sobrenatural que surge sempre quando tem fotógrafo ou videomaker por perto. O peba tem cãibra no plano. Tem cãibra na subida. E, se não se posicionar direito na bicicleta, também tem cãibra na descida.

Estradão – Trecho de terra aparentemente inofensivo que vira teste psicológico. Vento contra, sol rachando, e o peba refletindo sobre suas escolhas desde 1994.

Falso plano – Golpe baixo da geografia. O ciclista experiente diz: “Aqui é só um falso plano.” O peba acredita. Depois descobre que o “falso” era o parceiro de pedal.

Giro leve – Estado mítico que só existe na fala dos outros. Para o peba, qualquer giro é pesado. Até descendo.

Pelote – Ajuntamento organizado de sofrimento coletivo. O peba entra feliz. Sai cuspindo pulmão e prometendo nunca mais “rodar encaixado”.

PR (Personal Record) – Sigla que significa: “hoje eu quase morri, mas bati meu tempo”. O peba compartilha como se tivesse assinado contrato com a Tour de France.

Raiz – Adjetivo usado para enaltecer qualquer decisão questionável. “Pedal raiz na chuva.” Tradução: ninguém tinha juízo suficiente para cancelar.

Single track – Trilha estreita onde o peba descobre que equilíbrio não é seu forte desde a infância. Sempre há uma árvore estrategicamente posicionada para abraçá-lo.

Sprint final – Momento em que todos fingem que são o Peter Sagan. Inclusive o peba, que chega 500 metros depois, mas com muita dignidade e a língua no ombro.

E por fim, a palavra mais importante do vocabulário:

Resenha – A verdadeira razão do pedal. É o momento em que o sofrimento vira epopeia. A subida vira “controle total”. A quase queda vira “manobra calculada”. E o peba, que passou metade do trajeto pensando em vender a bike, já está planejando o próximo desafio.

E assim o dicionário do peba segue em constante atualização, como se a cada tombinho nas trilhas surgisse um novo verbete e a cada subida nascesse uma expressão inédita para justificar o injustificável. Porque o peba não admite que cansou (ele “quebrou o ritmo”). Não ficou para trás (fez “treino regenerativo não programado”). Não empurrou a bike (realizou “trekking assistido”).

Enquanto houver morro, vento contra e autoestima inflada por lycra, haverá também novas definições. Afinal, se não dá para ser atleta, que ao menos sejamos filólogos do próprio fracasso.

Nos vemos nas trilhas por aí

Renato Piovan

Peba assumido

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