A poucos meses de mais uma Copa do Mundo, o planeta começa a entrar no clima que só o futebol consegue provocar. Bandeiras voltam às janelas, campanhas publicitárias ganham as ruas, debates sobre convocações dominam as redes sociais e milhões de pessoas passam a compartilhar a mesma expectativa. A Copa é, sem dúvida, um dos maiores símbolos de união global já criados pela humanidade.
E talvez seja exatamente por isso que ela também nos obrigue a refletir.
Porque enquanto o mundo se organiza para assistir aos jogos, torcer, consumir e celebrar, o próprio mundo continua enfrentando guerras, fome, crises humanitárias, violência contra crianças, migrações forçadas, colapsos climáticos e desigualdades cada vez mais profundas. Em diferentes partes do planeta, pessoas seguem morrendo enquanto outras discutem escalações.
E aqui não existe qualquer crítica ao futebol. Muito pelo contrário. O esporte possui uma capacidade rara de aproximar povos, reduzir distâncias culturais e criar momentos de esperança coletiva. A Copa do Mundo emociona justamente porque consegue fazer bilhões de pessoas olharem para o mesmo lugar ao mesmo tempo.
A pergunta talvez seja outra: se o mundo consegue parar por causa de um campeonato, por que tantas vezes não consegue parar diante da dor humana?
É curioso perceber como as nações conseguem construir estruturas gigantescas para eventos esportivos, campanhas milionárias, transmissões globais e mobilizações instantâneas, mas ainda enfrentam enormes dificuldades para agir com a mesma urgência diante da fome, da infância perdida, da violência ou da miséria.
Talvez o problema não esteja no entretenimento. O problema pode estar na seletividade da nossa atenção.
Vivemos em uma era em que tudo disputa espaço: notícias, tragédias, vídeos curtos, escândalos, jogos, guerras e campanhas publicitárias aparecem lado a lado na tela do celular. Em poucos segundos, a humanidade consegue alternar entre uma cena de bombardeio e um meme sobre futebol. E isso, aos poucos, parece anestesiar nossa capacidade de sentir.
A Copa não é o problema. O problema seria permitir que ela, ou qualquer outro espetáculo, nos faça esquecer que existe um mundo real acontecendo fora dos estádios.
Talvez o maior desafio da nossa geração seja justamente aprender a celebrar sem perder a consciência. Vibrar sem ignorar. Torcer sem se tornar indiferente.
Porque o futebol pode unir países por noventa minutos. Mas a humanidade precisa aprender a se unir também fora deles.
E talvez a reflexão mais importante seja essa: quando as luzes da Copa se apagarem, quais causas continuarão recebendo nossa atenção?

Rodrigo de Souza: Comunicador e articulador social, cidadão que acredita que nenhuma paixão coletiva pode ser maior do que o valor da vida humana.

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