Nos últimos meses, os golpes virtuais têm adotado recursos de inteligência artificial para clonar vozes, criar vídeos falsos, simular mensagens de texto e até imitar o jeito de escrever de familiares. O objetivo é um só: enganar a vítima para obter dinheiro ou dados sensíveis.
Não se trata mais de simples tentativas de phishing. Estamos falando de engenharia social aliada a ferramentas de IA generativa, o que torna a fraude mais convincente e perigosa.
[h4]1. COMO FUNCIONAM OS GOLPES COM IA[/h4]
Imagine receber uma mensagem de WhatsApp de um número desconhecido, com a foto de um parente e um texto dizendo: “Oi, mãe, troquei de número. Estou com um problema e preciso de R$ 800 com urgência”.

Agora imagine que, em vez de um texto, chega um áudio com a voz real do seu filho, pedindo ajuda.
Ou pior: um vídeo com sua imagem, criada por IA, dizendo algo que você nunca falou.

Esses golpes já estão ocorrendo e têm desconcertado até os mais atentos.
Inclusive, o Poder Judiciário já analisou casos parecidos, como em uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (processo nº 1003055-20.2020.8.26.0008), em que um homem acreditou estar conversando com um antigo sócio pelo WhatsApp e acabou transferindo dinheiro para uma conta indicada na conversa.
Em outros julgados, o Tribunal de Justiça de São Paulo também vem se debruçando sobre diferentes tipos de golpes digitais que, embora nem sempre mencionem expressamente o uso de inteligência artificial, já evidenciam a sofisticação tecnológica das fraudes atuais.
Casos como o conhecido “golpe do motoboy”, em que criminosos se passam por funcionários de bancos para retirar cartões da casa da vítima ou para fazer uma entrega de um pacote solicitando foto para comprovação da entrega, ou o “SIM Swap”, no qual o chip do celular é clonado para permitir o acesso a contas bancárias e aplicativos, mostram que a engenharia social aliada à tecnologia tem sido usada de maneira estratégica para enganar até mesmo usuários cuidadosos.
Nesses casos, o Judiciário tem avaliado se houve falha dos prestadores de serviço de empresas ou se a vítima contribuiu para o golpe com algum comportamento imprudente.
Com a popularização da inteligência artificial, surgem também golpes mais recentes e difíceis de detectar, como os que utilizam deepfakes para simular vozes e imagens de pessoas conhecidas, clonagem de rostos para chamadas de vídeo e até robôs que imitam atendentes de instituições financeiras. A IA pode ser programada para reproduzir conversas anteriores, prever respostas e até aprender padrões de linguagem, tornando as interações muito mais convincentes.
Por isso, o desafio atual é ainda maior: proteger-se de uma fraude que parece verdadeira em todos os sentidos.
E é nesse contexto que o Direito passa a ser chamado a se posicionar, analisando cada caso sob a ótica da responsabilidade civil, da falha de segurança e do comportamento das partes envolvidas.
[h4]2. DICAS PRÁTICAS PARA SE PROTEGER[/h4]
Desconfiança e verificação são as principais armas. Ao receber qualquer pedido de dinheiro ou informação:
• Nunca transfira valores com base apenas em mensagens de texto.
• Ligue diretamente para o número antigo ou use uma videochamada.
• Faça perguntas que só a pessoa verdadeira saberia responder. Exemplos:
-> “Qual a data de nascimento do meu neto?”
-> “Qual é o nome do nosso cachorro?”
-> “Como se chama a vizinha da frente?”
Golpistas, por mais sofisticados, raramente têm acesso a informações afetivas, íntimas ou particulares. Ainda que usem IA para simular uma voz, não terão o conhecimento emocional e pessoal que apenas a pessoa real possui.
• Evite postar detalhes da sua vida pessoal em redes abertas. Isso inclui nome de pets, escolas dos filhos, viagens em tempo real e dados bancários.
• Ative a verificação em duas etapas em aplicativos bancários e redes sociais.
[h4]3. FUI VÍTIMA. O QUE FAZER?[/h4]
Se você foi enganado por um golpe com uso de IA, registre um Boletim de Ocorrência imediatamente e reúna todas as provas: prints, áudios, vídeos, comprovantes de transações.
Além disso, é possível:
1. Notificar imediatamente o banco ou instituição financeira que recebeu a transferência, solicitando o bloqueio dos valores e o rastreamento da operação. Em alguns casos, o tempo de resposta pode ser decisivo para evitar prejuízos maiores.
2. Registrar uma reclamação formal no PROCON, especialmente quando houver negativa de atendimento por parte da empresa envolvida ou resistência no reembolso. O órgão pode intermediar a solução e ainda aplicar sanções administrativas em casos de descumprimento do Código de Defesa do Consumidor.
3. Buscar a responsabilização da plataforma digital utilizada no golpe, como WhatsApp, Instagram ou outras redes, sobretudo quando houver indícios de contas invadidas, perfis falsos ou falhas no sistema de verificação.
4. Propor ação judicial com pedido de indenização por danos materiais e morais, com fundamento no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor, sempre que houver indícios de falha na prestação do serviço, omissão no dever de segurança ou ausência de mecanismos eficazes de proteção ao usuário.
[h4]4. O PAPEL DO DIREITO NESSE NOVO CENÁRIO[/h4]
Embora o Brasil ainda não conte com uma legislação específica que regulamente de forma abrangente o uso da inteligência artificial, o ordenamento jurídico vigente já oferece instrumentos eficazes para proteger o consumidor e responsabilizar os envolvidos em fraudes digitais. Códigos como o Civil e o de Defesa do Consumidor, aliados ao Marco Civil da Internet, permitem a responsabilização de fraudadores, além de, em certos casos, plataformas digitais e instituições financeiras, especialmente quando demonstrada falha na prestação do serviço, omissão na segurança ou descumprimento de deveres legais.
O Poder Judiciário, atento à crescente complexidade dos golpes, tem reconhecido a vulnerabilidade do consumidor frente a tecnologias cada vez mais sofisticadas. A jurisprudência aponta para a necessidade de avaliação caso a caso, considerando a conduta das partes, o grau de prevenção adotado e os meios utilizados na fraude.
Paralelamente, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei do Marco Legal da Inteligência Artificial (PL n° 2338, de 2023), que visa estabelecer princípios, direitos e deveres para o desenvolvimento e uso responsável da IA no Brasil. Caso aprovado, esse marco legal deverá reforçar a proteção dos cidadãos contra abusos e usos indevidos dessas tecnologias, contribuindo para um ambiente digital mais seguro, ético e transparente.
[h4]IA? ENTRE A CONFIANÇA E O CUIDADO.[/h4]
A tecnologia é uma aliada poderosa — mas, como toda ferramenta, carrega o potencial de servir tanto ao bem quanto ao mal. A inteligência artificial inaugurou um novo capítulo na era dos golpes digitais, ampliando os riscos de manipulação e falsificação com aparência de legitimidade.
Neste cenário, a melhor defesa é a combinação entre informação, prevenção e resposta ágil. Não basta reconhecer que o golpe é possível — é preciso adotar comportamentos proativos e criteriosos.
Antes de confiar em uma mensagem, confie na sua intuição e nas perguntas que só alguém próximo saberia responder. A IA pode imitar rostos, vozes e até sentimentos, mas não consegue replicar com fidelidade os vínculos afetivos e as memórias compartilhadas. Em tempos de alta tecnologia, o cuidado segue sendo o melhor filtro entre o real e o artificial.

