Existe um tipo raro de ciclista que não odeia pessoas, mas apenas prefere manter distância segura delas quando está suando, bufando e negociando com o próprio joelho para não desistir no quinto quilômetro. É o ciclista antissocial. Aquele que pedala sozinho não por falta de amigos, mas por excesso de experiências traumáticas em grupo.

Pedalar sozinho é terapêutico. Você conversa consigo mesmo, perde discussões para si próprio e ainda assim sai satisfeito. Não precisa esperar ninguém, não é esperado por ninguém e, principalmente, não precisa fingir que está “inteiro” quando, na verdade, está considerando seriamente virar ciclista de sofá.

A opção pelo pedal solo nasce, quase sempre, depois de cruzar com alguns tipos clássicos de ciclistas que deveriam vir com selo de advertência. Vamos a eles:

Primeiro, o Ciclista GPS Humano. Ele nunca erra o caminho, só descobre trilhas alternativas inéditas, geralmente depois de 40 minutos pedalando em círculos. Quando alguém pergunta “tem certeza?”, ele responde com convicção científica: “acho que é por aqui”. Spoiler: não é.

Tem também o Ciclista Smurf Ranzinza. Tudo dói. O selim, a lombar, o vento, o sol, a lua, o alinhamento dos planetas. Cada pedalada vem acompanhada de um boletim médico não solicitado. Você não sabe se continua a trilha ou liga para um ortopedista.

Impossível esquecer do Ciclista Influencer, que não pedala: produz conteúdo. Para a cada subida, três fotos. Para cada descida, um vídeo. Para cada parada, um discurso motivacional que ninguém pediu. O treino termina, mas o story continua por 24 horas.

Há ainda o temido Ciclista Personal Trainer de Si Mesmo (e dos outros). Ele começa a trilha dizendo “vai no seu ritmo”, mas cinco minutos depois está gritando ordens técnicas como se estivesse treinando uma equipe olímpica. E se o seu ritmo não acompanha o dele, você vai ser deixado pra trás, como se a tal Thayane (aquela das trilhas em montanhas) agora fosse ciclista.

Outro clássico é o Ciclista Relógio Atômico, obcecado por média. Ele não pedala, ele calcula. Se o percurso rende 0,3 km/h a menos do que o esperado, o dia está arruinado. Você até tenta conversar, mas ele está ocupado demais sofrendo com números imaginários.

E como esquecer do Ciclista Consultor de Investimentos Alheios. Esse é especialista em gastar o seu dinheiro. Nunca pergunta se você está feliz pedalando; pergunta apenas quanto você pagou na sua bike. A partir daí, inicia uma palestra não solicitada sobre carbono, groupset eletrônico, roda de perfil alto, canote retrátil, sensor disso, chip daquilo e um acessório novo que “mudou completamente a minha vida”. Segundo ele, seu sofrimento na subida não é falta de treino, é falta de orçamento. Se você trocar a bike, o selim, o capacete, o óculos, o pedal, a meia e, se possível, a conta bancária, tudo se resolve.

Depois de conviver com essas espécies, o ciclista antissocial entende uma verdade profunda: pedalar sozinho não é solidão, é logística emocional. É sair no horário que dá, parar quando quer, xingar mentalmente a subida sem testemunhas e voltar para casa com a dignidade parcialmente preservada.

Sozinho, ninguém julga sua velocidade, seu equipamento, sua respiração ofegante nem o fato de você ter feito uma pausa “técnica” que, na prática, foi só para recuperar a vontade de viver.

Pedalar sozinho é isso: um pacto silencioso entre você, a bike e a trilha. Sem reuniões, sem atas, sem grupo de WhatsApp. Apenas o som da corrente, o barulho do mato e aquela certeza íntima de que, socialmente falando, você fez a melhor escolha do dia.

Nos vemos nas trilhas por aí

Renato Piovan, peba assumido e ciclista antissocial.

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