“Empunhem firmemente a bandeira da liberdade, quem persiste na luta acaba triunfando”(Mensagem de Helenira aos jovens)
Helenira Resende de Souza Nazareth, filha do médico humanista Adalberto de Assis Nazareth, está entre as vítimas da Ditadura Militar que durou 21 anos (1964-1985). Na luta por liberdade e volta da democracia, Helenira, que era ligada ao PCdoB, foi guerrilheira no Araguaia, sul do Pará. Em 1972, aos 28 anos de idade, foi presa e morta a golpes de baioneta, após ter sido metralhada nas pernas e torturada por soldados do Exército, durante uma batalha.

No livro Assis de A a Z (Editora L2M), o jornalista Marcos Barrero descreve o momento em que se deu a morte. A guerrilheira, que usava codinomes de Fátima, Eliana ou Nega, e era integrante do Destacamento A - um dos três batalhões de guerrilheiros espalhados pelas matas paraenses -, montava guarda em um ponto da mata para abrir caminho aos companheiros em fuga das tropas militares.

“Em dupla com outro guerrilheiro no posto de observação, ouviram ruídos na mata. Ele viu os soldados primeiro, atirou, mas a arma falhou e ele fugiu. Helenira foi surpreendida no meio do tiroteio. Reagiu, atirou, foi alvejada, presa, torturada e morta”. Segundo o livro, o corpo de Helenira, foi enterrado em local desconhecido. “Sua família – cujo patriarca era o lendário médico assisense Dr. Adalberto de Assis Nazareth — lutou por anos para acessar documentos secretos (ainda sob guarda do governo em 2007) na esperança de localizar seus restos mortais na selva”, acrescenta o autor Marcos Barrero.

Já o jornalista Luiz Maklouf Carvalho, em seu livro “O Coronel Rompe o Silêncio”, diz que Helenira foi a primeira guerrilheira morta no Araguaia. Carvalho reproduziu na obra, um trecho do Relatório sobre a Luta do Araguaia, escrito pelo guerrilheiro e ex-operário Ângelo Arroyo (que usava os codinomes Joaquim e Noé), publicado em Guerrilha do Araguaia (Ed. Anita Garibaldi), em que descreve, com outros detalhes, como se deu a morte da guerrilheira:

“No dia 29 de setembro, houve um choque que resultou na morte de Helenira Resende. Ela e outro companheiro estavam de guarda num ponto alto da mata para permitir a passagem sem surpresa de grupos do destacamento. Nessa ocasião, tropas avançavam pela estrada. Como a passagem era perigosa, enviaram batedores para explorar a margem, justamente onde Helenira e seu companheiro estavam. Este, ao ver os soldados, acionou a metralhadora, que não funcionou. Ele correu, e Helenira não percebeu a tempo. Quando viu, os soldados já estavam diante dela. Atirou com uma espingarda calibre 16, matou um. Outro soldado disparou uma rajada de metralhadora que a atingiu. Ferida, sacou um revólver e atirou no soldado, que deve ter sido atingido. Foi presa, torturada e morta. Elementos da massa dizem que seu corpo foi enterrado no local chamado Oito Barracas.”

Existem outras versões para o ocorrido. Uma delas, conta que Helenira, após ser atacada, teria exclamado: “Meus companheiros me vingarão”. Porém, a versão mais aceita é a de Arroyo.
Entretanto, mais tarde, o Exército divulgou, segundo reportagens publicadas sobre a Ditadura Militar, a data correta da operação, em que se deu a morte de Helenira: 28 de setembro, e não 29, como disse Arroyo.


A militância política da filha do Dr. Nazareth inicia quando ingressa na USP, em 1964, onde aprofunda os estudos da teoria marxista, iniciados por conta própria ainda em Assis, e passa a mostrar seu talento como oradora, em congressos estudantis. Adota o nome de guerra de Lenira. Em 1968, período de chumbo do regime militar, ela era vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e estudante do curso de Letras da icônica Faculdade de Filosofia, da rua Maria Antônia. Em paralelo, dedica grande parte do seu tempo, aos seus alunos de Português, em escolas da periferia de São Paulo, e a dirigir peças teatrais. Helenira foi presa, pela primeira vez, quando participava de panfletagem, convocando os colegas da universidade a participarem de passeata, no incendiário mês de maio de 68.

No mesmo ano, ela volta à prisão, ao participar do 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), com mais 800 estudantes. Acusada de ser líder do movimento, Helenira é transferida do presídio Tiradentes para o DOPS/SP, onde é interrogada e ameaçada de morte pelo famigerado delegado Sérgio Paranhos Fleury. Torna-se presa incomunicável, com paradeiro ignorado, a exemplo de outros líderes estudantis em Ibiúna, como José Dirceu, Luís Travassos e Wladimir Palmeira. Depois, a ativista foi transferida para o presídio feminino do Carandiru. Livre da prisão por um habeas corpus, Helenira passa a viver na clandestinidade, até seguir ao Araguaia, e se tornar guerrilheira. Ainda no Congresso de Ibiúna, ela conhece o líder estudantil cearense, José Genoino Neto, que depois seria seu companheiro de guerrilha, no Araguaia.
“Ela era uma pessoa muito amiga, muito alegre, e torcedora fanática do Corinthians“, recorda Genoino, ao jornalista Júlio Cezar Garcia, na reportagem A Comovente História de Helenira, publicada em 8 de fevereiro de 1979, pelo jornal Voz da Terra, de Assis.
Júlio, aliás, foi um dos primeiros a contar a história da guerrilheira. “Eu trabalhava na Editora Abril e vi nos jornais a notícia da prisão e morte da Helenira. Como ela era de Assis, com um pai muito respeitado na cidade, decidi levantar a história dela e os detalhes da sua morte”, afirma o jornalista. “Fiquei chocado com os detalhes apurados junto às fontes que me passaram as informações, e que haviam participado com ela das ações contra a ditadura militar”, disse. “Acho muito oportuno esse resgate da história de Helenira, que faz parte da história de Assis e do país”.
À nossa reportagem, José Genoíno deu um vigoroso depoimento sobre Helenira. Confira o vídeo, no link abaixo:
O início, em Assis
Nascida em Cerqueira César (SP), em 19 de janeiro de 1944, Helenira desembarcou com a família em Assis, aos quatro anos de idade. Após os estudos fundamentais, ela ingressa no então curso Clássico (hoje, Ensino Médio) no Instituto de Educação Clybas Pinto Ferraz, onde fundou e foi a primeira presidente do Grêmio Estudantil da escola. Magra e de movimentos ágeis, se torna uma atleta polivalente: como jogadora de basquete, integra a seleção assisense da modalidade, ao mesmo tempo em que coleciona medalhas em competições de salto à distância, no atletismo. No basquete, foi pupila do experiente casal Coraly e Loudomiro Carneiro, o Mirinho. Conquistou títulos pelo Instituto de Educação, e pela seleção da Comissão Central de Esportes (CCE), em Jogos Regionais, e nos Jogos Abertos, em 1958 e 1962. “Aprendeu a jogar basquete conosco”, disse Mirinho, em depoimento a Marcos Barrero, acrescentando que a filha do Dr. Nazareth, tinha gênio forte, mas que era respeitosa com “a gente e com as colegas”. Helenira, segundo o ex-técnico, era uma das atletas mais altas, fortes e ágeis da equipe. “Jogava de pivô”, completou.

A veia política de Helenira, se manifestou quando ainda era bastante jovem. Além das leituras marxistas, ela já demonstrava sua preocupação com os problemas sociais, com os menos favorecidos. Tal inclinação, chamou a atenção do pai, Adalberto Nazareth, que comentava com os amigos. Não deu outra. Mais tarde, no início dos anos de 1960, e cheia de sonhos, Helenira partiu para São Paulo, para os estudos universitários, e o ingresso na resistência ao golpe militar. Morta, ela deixa um legado de luta e um recado às novas gerações. Ou seja, que é preciso lutar sempre em favor da democracia, da liberdade e pela justiça social.
O Portal AssisCity entrevistou via chama de vídeo, a irmã de Helenira, Helenalda Resende, que compartilhou momentos e histórias da vida com a irmã, desde a infância até a última vez que a viu:
Fonte: Livro Assis de A a Z
Fotos- Créditos: Acervo do jornalista Marcos Barrero
Homenagens
O memorial da Escola Estadual Dr. Clybas Pinto Ferraz, onde Helenira e suas irmãs estudaram, recebeu o nome da ex-guerrilheira. A cerimônia aconteceu no dia 13 de maio de 2025, com a presença de uma das irmãs de Helenira, Helenalda Resende de Souza Nazareth, que doou para o memorial, fotos e cartas. O memorial fica numa das salas do 2º andar da escola, e reúne ainda livros e documentos que registram a história do Clybas. Para a diretora do estabelecimento de ensino, Rosimeire Aparecida Cassador, a homenagem está dentro do contexto de que, preservar a história é preservar a memória. “Helenira está entre os alunos e outros personagens importantes, que contribuíram para a história da nossa escola. Além da sua grande trajetória de vida, ela foi também a nossa primeira presidenta do primeiro Grêmio Estudantil”, ´pontou a diretora.

A iniciativa faz parte de um movimento em favor da memória de Helenira Resende, liderado pela estudante do 4º ano do curso de História da Unesp, Luana Bisterço Mendonça Romão, numa demonstração de que os jovens também se preocupam com a perpetuação0 da história e da memória local e nacional, com o exemplo de Helenira.
Confira o vídeo com a entrevista com Luana Romão, no link abaixo:
Uma das ruas do bairro Jardim Paraná, em Assis, leva o nome de Helenira Resende de Souza Nazareth. Projeto de Lei 81/2012, nesse sentido, de autoria do então vereador João da Silva Filho (Dem, hoje União Brasil), foi aprovado pela Câmara Municipal, em 6 de agosto de 2012. Uma outra homenagem, veio de Xapuri, no Acre. Em 1984, a filha do líder seringueiro Chico Mendes, é registrada como Helenira Alves Mendes, no cartório da cidade.
A casa onde Helenira morou com a família em Assis, fica na rua Dr. Luiz Pizza, 233, no Centro, próximo à Catedral.











