De anos para cá ouvimos sempre falar em austeridade. No Brasil, essa palavra é como convite para churrasco: só chega na casa dos outros. No grande picadeiro do Congresso Nacional, nossos ilustríssimos deputados federais e senadores dominam a arte do ilusionismo político. Com uma mão empunham a bandeira da responsabilidade fiscal, com a outra distribuem emendas parlamentares como quem joga confete em época de eleição. A plateia, claro, somos todos nós, ainda mais as classes C e D, pagantes do espetáculo e dos privilégios.
E o show precisa continuar. Enquanto o governo federal é pressionado a cortar na carne os programas sociais que sustentam milhões de brasileiros e melhoraram os índices econômicos do país desde a redemocratização, os deputados federais ensaiam um balé de emendas que, curiosamente, sempre caem no colo de pequenas prefeituras onde são recebidos como semideuses com cheque na mão. O truque? Transformar dinheiro público em capital eleitoral.
O roteiro é sempre o mesmo: o deputado envia uma emenda de R$ 500 mil para reformar uma praça ou fazer um palco para shows sertanejos em um município de 20 mil habitantes. O prefeito, emocionado, grava um vídeo segurando o ofício. O vereador puxa o deputado pela mão para a foto oficial. A legenda? “Nosso deputado é parceiro de verdade!” E ali está selada mais uma aliança de poder.
Esse teatro serve a um propósito maior: transformar regiões inteiras em feudos eleitorais. Com cada emenda, o deputado finca mais fundo seu estandarte no curral eleitoral. Os prefeitos retribuem com apoio irrestrito, e os vereadores posam como cabos eleitorais orgânicos — alguns já de olho em uma vaguinha na próxima eleição. Assim, perpetua-se o ciclo vicioso: dinheiro público vira santinho digital no Instagram e vídeo viral de agradecimento no Facebook. Tudo com aplausos e filtro. E o povo? O povo continua esperando esgoto, escola, hospital, mas ganha selfie com político.
Enquanto isso, no mesmo Congresso onde se rasgam discursos sobre a necessidade de “enxugar o Estado”, o Bolsa Família é considerado um luxo perigoso, um risco à estabilidade fiscal, assim como BPC e outros mais. Afinal, por que investir em famílias pobres quando se pode patrocinar a reeleição com palco, som e iluminação de LED?
E não se engane: a lógica é sofisticada. As emendas não são apenas moeda de troca, são ferramentas de manutenção de um sistema político que repele a renovação como o diabo foge da cruz. Como surgirá uma nova liderança política se todos os recursos estão concentrados nas mãos de quem já está no poder? É o bom e velho coronelismo 5G: com Wi-Fi, redes sociais, drones e assessor de imprensa, mas a lógica é a mesma do século XIX — mando eu, agradece você.
Os deputados, que deveriam legislar e fiscalizar, tornaram-se verdadeiros investidores políticos: aplicam emendas em cidades estratégicas e colhem votos com juros e correção eleitoral. E que ninguém se atreva a desafiar esses feudos, pois a máquina já está montada: tem a prefeitura, a câmara municipal, o evento de inauguração e a mídia local a postos. Tudo financiado com o nosso dinheiro.
Enquanto isso, a proposta de isenção de imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais segue engavetada. Os privilégios da elite do funcionalismo público seguem intactos. Os 500 bilhões destinados ao agronegócio via Plano Safra seguem irrigando o topo da pirâmide. E o povo, esse mesmo povo que carrega o país nas costas, continua com o prato vazio e o bolso furado.
É preciso denunciar esse teatro, desmontar esse circo. A política brasileira não pode ser palco de eternas reeleições financiadas por emendas que deveriam servir ao bem comum, e não aos interesses pessoais de quem já está há décadas no poder. Renovação não é utopia, é uma necessidade. E só será possível quando a população compreender que por trás de cada show financiado com verba pública, existe um projeto muito bem armado para manter tudo exatamente como está.
Se austeridade é para valer, que comece cortando os privilégios de quem ganha acima de R$ 46 mil por mês, tem auxílio paletó, auxílio combustível, auxílio moradia e ainda se sente no direito de dizer que o país está gastando demais com os pobres. Que se ponha fim aos currais eleitorais, à compra de apoio político disfarçada de investimento municipal. O Brasil não é uma propriedade de deputados. É uma República, ou ao menos deveria ser.
E quando o próximo deputado aparecer na sua cidade com uma placa de emenda na mão e um sorriso de campanha no rosto, pergunte a ele onde está a creche, o posto de saúde, a merenda escolar de qualidade. Porque show, meu amigo, a gente já tem demais e palhaço, francamente, o povo já cansou de ser.










