A Secretaria Municipal de Cultura de Assis anunciou que irá exibir o filme O Agente Secreto no mês de fevereiro.

O fato chama atenção porque a produção é duramente criticada por setores do bolsonarismo em todo o país. O município é administrado por uma gestão vinculada ao Partido Liberal (PL), sigla do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Quais serão as consequências para a popularidade do governo municipal ao reproduzir, gratuitamente, um filme que remete a valores contrários à extrema-direita? Em uma cidade onde o bolsonarismo é eleitoralmente forte, a exibição será lida como política cultural ou como provocação ideológica?

REAÇÕES IDEOLÓGICAS E O CENÁRIO ASSISENSE

A projeção internacional do filme foi celebrada pela esquerda brasileira e gerou uma onda de críticas de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Durante o processo eleitoral municipal, parte dos apoios políticos que contribuíram para a formação da atual administração teve origem nessa vertente da direita. O governo municipal ainda conta com respaldo político de uma parcela de deputados alinhados ao bolsonarismo.

RIGIDEZ IDEOLÓGICA OU LEITURA CRÍTICA?

Esse cenário levanta dúvidas sobre a receptividade que a iniciativa terá entre seus apoiadores. Se aquilo que não pertence à simbologia bolsonarista tende a ser rejeitado e seus idealizadores são alvo de críticas, como essa decisão será interpretada por uma base eleitoral historicamente hostil a produções culturais associadas à esquerda?

ACESSO À CULTURA E ARGUMENTAÇÃO

Culturalmente, a medida é relevante, pois amplia o acesso a uma produção brasileira de destaque internacional e a uma obra que dialoga com a história do país. A avaliação do roteiro cabe a cada espectador; o essencial, em uma democracia, é o acesso à obra para que a opinião seja formada de maneira fundamentada.

Portanto, até que ponto a gestão pública deve se submeter às expectativas ideológicas de seus apoiadores quando o tema é o acesso à cultura e à memória histórica do país?

O CHOQUE IDEOLÓGICO

O campo bolsonarista produz símbolos de pertencimento: verde e amarelo em oposição ao vermelho, ataques à imprensa, ultraconservadorismo sob o lema “Deus, Pátria e Família”, liberalismo econômico e rejeição a pautas progressistas.

Ambientado na década de 1970, durante a Ditadura Civil-Militar brasileira (1964–1985), o filme expõe práticas de repressão política, tortura e espionagem estatal, período frequentemente relativizado por setores da extrema-direita, que rejeitam a obra por associar o autoritarismo daquele contexto a manifestações contemporâneas do conservadorismo.

Parte desses críticos sequer assistiu ao filme. Ainda assim, rejeitam a obra pelo fato de Wagner Moura ser o protagonista. O ator é amplamente conhecido por defender uma agenda progressista, com valores alinhados à esquerda política, e por ser um crítico notável de Jair Bolsonaro.

RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

O longa, dirigido por Kleber Mendonça Filho, concorre ao Oscar em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco.

No Globo de Ouro, recebeu os prêmios de Melhor Ator em Drama (Wagner Moura), Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Filme em Drama.

A cerimônia do Oscar 2026 será realizada em 15 de março, em Los Angeles.

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