Artigo por Guilherme Rabassi
A Câmara aprova aumentos de até 75% para vereadores, prefeito e secretários. Dizer que “ganhar bem evita corrupção”. Essa frase não ofende apenas o bom senso — ela desrespeita todos os trabalhadores que mantêm essa cidade de pé.
Professor, enfermeira, gari, pedreiro, motorista, comerciário, operador de máquina, agricultor, produtor rural, autônomo. Gente que acorda cedo, enfrenta sol, chuva, dor no corpo, salário apertado e, muitas vezes, falta de reconhecimento. Nenhum deles ganha “bem” — e ainda assim seguem honestos, todos os dias.
No campo, a realidade é ainda mais cruel. O produtor rural não tem recesso, não tem salário garantido, não tem aumento votado em plenário. Planta no risco, colhe na incerteza e vende barato. Se perder a safra, perde tudo. Se adoecer, o trabalho para. Mesmo assim, segue produzindo alimento para a cidade.
Dizer que salário alto evita corrupção é passar um atestado de desconfiança sobre quem ganha pouco. É como se honestidade fosse privilégio de quem recebe alto subsídio. Não é.
Corrupção não se combate com aumento salarial, mas com fiscalização, transparência, controle social e respeito ao dinheiro público. Quem precisa de salário alto para não se corromper já revelou o problema.
Enquanto isso, trabalhadores seguem com salários congelados, serviços públicos sobrecarregados e o custo de vida subindo. Para eles não há reajuste de 75%, não há votação simbólica, não há discurso bonito.
A política deveria servir à população, não se servir dela.
E o povo não é bobo — está vendo, sentindo e pagando a conta.
Guilherme Rabassi é produtor rural, serrador de lenha e bancário.










