O som do “piuí, piuí, piuí” ecoou pela avenida e, mais do que anunciar o início do desfile, despertou lembranças, orgulho e pertencimento. Abrindo o Carnaval assisense de 2026, a tradicional escola de samba Unidos da Vila Operária encantou e emocionou o público ao transformar história em poesia, memória em resistência e samba em instrumento de valorização do trabalhador.
Ao longo de seus 46 anos de trajetória, a V.O. sempre buscou transmitir mensagens populares, ligadas ao povo e às suas raízes. Desta vez, não foi diferente. A homenagem foi dedicada àqueles que ajudaram a construir a história de Assis: os ferroviários. Homens e mulheres que, com suor e coragem, trilharam os caminhos de ferro que impulsionaram o desenvolvimento econômico e social da cidade e deixaram marcas profundas na identidade local.
Entre os homenageados, um nome ecoou com força na avenida, o maquinista Otacílio Dorácio Mendes. Lembrado como herói, Otacílio perdeu a vida em 1950 quando evitou uma tragédia ainda maior durante um incêndio em uma composição ferroviária. Seu gesto de bravura ultrapassou o tempo e, no enredo, tornou-se símbolo do compromisso e da responsabilidade histórica dos trabalhadores com a coletividade.
Para cumprir essa missão, a escola levou para a avenida o samba-enredo “Filhos da Ferrovia”, que exaltou não apenas a categoria ferroviária, mas todos os que vivem do trabalho. Professores, garçons, radialistas, trabalhadores da construção civil e tantos outros setores desfilaram com orgulho, representando a Vila Operária, conhecida como a vila dos trabalhadores assisenses, reafirmando a importância do trabalho na construção da memória e do presente da cidade.
Em um momento em que o país debate temas como o fim da escala 6×1 e as condições de trabalho, o desfile ganhou ainda mais significado. Valorizar quem trabalha é reconhecer que direitos não são favores, mas conquistas históricas. A luta dos ferroviários, por exemplo, foi decisiva para a consolidação de direitos trabalhistas no Brasil, mostrando que organização e mobilização sempre foram ferramentas fundamentais da classe trabalhadora.
A escola também trouxe para a avenida uma ala representando o grevismo como parte legítima da luta social e do direito constitucional. O que faz memórias recordarem da histórica greve de 1906, concentrada na Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em São Paulo, contra jornadas exaustivas de trabalho. O desfile reforçou que movimentos paredistas não são atos de desordem, mas marcos de resistência contra a exploração do trabalhador, baixos salários e repressão. Sem luta, não há conquistas; sem memória, não há futuro.
Encerrando o espetáculo, ficou evidente que o Carnaval é muito mais que uma festa, mas sim cultura popular pulsando. Das fantasias confeccionadas com dedicação ao longo do ano aos ensaios que reuniram gerações, o que se viu foi a força das classes populares transformando arte em mensagem. Jovens e idosos, pretos e brancos, unidos pelo samba e pela história, mostraram que Assis reconhece e celebra aqueles que construíram e constroem, todos os dias, a sua própria grandeza.










