A proposta da Câmara Municipal de Assis para elevar em 75% o salário dos vereadores, podendo chegar a quase R$ 15 mil, juntamente ao reajuste de 30% para prefeito, vice e secretários, que será votada nesta segunda-feira, 15 de dezembro, na FEMA, reacende um debate essencial sobre o sentido da política local. Em um país onde servidores lutam para ter ao menos a reposição inflacionária, ver representantes cogitando aumentos tão expressivos não parece apenas atitude desconectada da realidade, mas soa como um choque frontal com a moralidade pública.
É verdade que tais reajustes encontram respaldo nas brechas legais e nos limites constitucionais. A lei permite, os mecanismos existem e os defensores do aumento citam defasagens e comparações com outras câmaras. Mas a ética, diferentemente da lei, exige mais do que legitimidade técnica, mas sensibilidade social. E sensibilidade é justamente o que falta quando, às vésperas de eleições, o debate passa a ser quanto cada um dos eleitos deve ganhar e não quanto devem entregar.
Enquanto isso, professores, agentes de saúde e inúmeros servidores municipais enfrentam anos de perdas salariais, negociações arrastadas e carreiras inteiras marcadas pela luta por dignidade. Para estes trabalhadores, não existe a prerrogativa de votar o próprio reajuste. O aumento não nasce de um projeto votado entre colegas, mas de mobilização, pressão e resistência. A comparação evidencia uma ferida aberta: a desigualdade no acesso aos mecanismos de valorização.
É nesse contexto que o Projeto de Resolução nº14/2025 e o Projeto de Lei nº 199/2025, proposto pela Câmara causa espanto. Muitos parlamentares chegaram ao poder com discursos de renovação, cuidado com o dinheiro público e compromisso com a população. Mas, diante de uma oportunidade de autorrecompensa, a “renovação” parece rapidamente evaporar, cedendo espaço ao velho hábito de se beneficiar primeiro e explicar depois. A promessa de “fazer diferente” vira, aos olhos da população, apenas mais uma variação da mesma velha política de sempre.
E aqui surgem perguntas essenciais: qual a justificativa moral para aumentar tanto os salários do legislativo e do executivo se os problemas da cidade permanecem sem solução plena? As promessas foram cumpridas? A qualidade da educação melhorou? A saúde avançou? As demandas históricas dos bairros periféricos receberam respostas consistentes? Se não há resultados proporcionais, por que deveria haver reajuste tão generoso assim?
A contradição entre discurso e prática aprofunda a crise de representatividade que já assombra a política nacional. Quando a população observa seus representantes priorizando o próprio bolso em vez das necessidades coletivas, fortalece a ideia de que a política serve mais aos ocupantes do poder, das cadeiras e bancadas do que àqueles que os colocaram ali. É nesse terreno fértil que cresce a descrença, o desânimo e a ideia de que “todos são iguais”.
Porém, a democracia oferece uma ferramenta poderosa contra esse ciclo: a memória do eleitor. O voto não é apenas um ato cívico, mas um mecanismo de correção. Saber quem agiu, como agiu e por que agiu é essencial para escolher melhor. E escolhas melhores só nascem da consciência histórica crítica alimentada por episódios como este.
No fim, resta a reflexão: será que precisamos de salários mais altos ou de políticos mais compromissados, com caráter e responsabilidade com o dinheiro público? Porque aumento sem propósito pode até ser legal, mas, como muitos dizem, é imoral. E imoralidade é algo que a política, infelizmente, já domina com maestria.
Fernando Cândido de Paula é jornalista e professor.










