Depois que conheci este sorriso lindo e esses olhos de jabuticaba, nada mais me importa. O dia era chuvoso, num outono de folhas secas e tempestades passageiras. Eu só vivia a esperando… Olhava para a parede confiando o relógio caminhar. E nada mais me importava.
Internamos por volta das 14 horas e ela chegou ao mundo às 18h. Um choro forte que todos ouviram e lágrimas que escorreram seu rosto assustado pelo novo que conhecera. Eu a peguei no colo pela primeira vez. E desde então toda a minha vida é dela.
Para ser sincero, eu nem vi o tempo passar. Acredito que essa talvez seja a parte mais injusta da nossa estadia por aqui: não vemos o tempo passar. E não temos tempo para aproveitar cada segundo dos nossos dias. Quando pisquei, ela cresceu.
Celebramos conforme o seu desejo. Ela queria reunir os amigos da escola e aqueles familiares mais próximos. Assim aconteceu, num lugar onde a diversão era o ingresso e os sorrisos se confundiam com os docinhos e as brincadeiras.
Foi um dia e tanto… Consegui dar a ela o primeiro abraço de parabéns e a promessa, com os dedos cruzados, de que até a meia-noite era dela o que quisesse. Um domingo especial para seu aniversário. A festa ficou por nossa conta. A arrumação começou dias antes e terminou na correria da tarde. Personagens a postos, mesas vestidas, bolo confeitado, músicas ensaiadas.
No meio da diversão, meu coração pulou e sorriu como aquele convidado que primeiro chegou. Ela me abraçou e disse que aquele, sim, era o melhor dia da sua vida. E como não ser da minha também? Sorrimos e dei a ela um beijo com toda a minha sinceridade.
Como o tempo passa quando estamos felizes…
Já chegou a hora dos parabéns. Molecada reunida em volta da mesa do bolo. O mais esperto roubou dois brigadeiros que enfeitavam as fotos. Luz apagada, “é pic…é pic…” Ela assoprou as velinhas antes da hora, num ápice de vergonha e ansiedade que consumia o seu interior (dias atrás me confessou que o nervosismo era tanto por sua festinha que sentia borboletas na barriga todas as vezes que fechava os olhos). O tradicional “Parabéns pra você” já acabou.
Eu fui o responsável por acender as luzes novamente. É a hora de dividir o bolo, comer os brigadeiros sem se esconder, fazer a fila para ganhar o pedaço maior. Mas a vida… Ah, a vida…
A graça dela está exatamente nos seus imprevistos. Já pensou como seriam todos os ‘parabéns’ se estes se acabassem em palmas ou velas apagadas na hora certa? Ainda bem que existem as borboletas na barriga e os imprevistos, que nos marcam para sempre.
Nesse dia nem bem as luzes se acenderam e outro cântico já começou. Era o temível ‘com quem será?’ – musiquinha inventada por algum qualquer, sem filhas e sem ciúme, que deixou o meu dia feliz um tanto quanto desesperador.
Eram meninos e meninas cantando com toda força, olhando para o lado, sorrindo, apontando os dedos, fazendo coraçãozinho com suas mãos. E um pai com os olhos fechados e o coração apertado, querendo entrar atrás daqueles balões rosas e azuis que levei a tarde toda para encher.
Ufa! Terminou.
Ela morrendo de vergonha e eu procurando pelo sujeito que, como todos os pequenos me avisaram, vai casar com a minha filha.
O encarei de perto, chamei para conversar. E ele sem vergonha e sem medo do pai da noiva veio até mim no alto de seu metro e meio. Chegou a hora de colocar os pingos nos i’s…
Como um pai bravo que sou, ao invés de beliscões, dei ao meu oponente um beijo na testa e um abraço apertado. O meu coração, inquieto pelo momento inédito que acabava de passar, agradeceu àquele lindo menino por de alguma maneira fazer a minha filha sorrir.
Enfim, a meia-noite chegou. Antes de cair no sono, ela me abraçou e agradeceu por aquele que “foi o melhor dia de todos”.
Para os pais, desesperados como eu, contentem-se: é um caminho sem volta. Afinal, esse é o verdadeiro sentido da vida: borboletas na barriga, parabéns que não acabam, imprevistos que marcam, sorrisos que revigoram.
Ao responsável pelo “com quem será?”, fique aqui avisado: ano que vem vamos colocar os pingos nos i’s.










