Quase três semanas após o episódio que movimentou a política de Assis, a prefeita Telma Spera falou pela primeira vez sobre o despejo do vice-prefeito Alexandre Cachorrão de seu gabinete na Prefeitura. Em entrevista concedida nesta quinta-feira, dia 7 de maio, ela revelou o que considera o estopim da crise — e que vai além do posicionamento público de Cachorrão sobre o contrato da UPA.
Para a prefeita, tudo mudou quando o vice-prefeito anunciou sua pré-candidatura a deputado. “No caso do vice-prefeito, foi uma opção que ele fez. E para mim, estrategicamente, foi uma opção muito ruim para ele. Quando ele optou por ser candidato a deputado, mudou tudo. Por quê? Porque eu já sou algo. E aí o que acontece? Quando ele faz essa opção, eu tenho que blindar a prefeitura“, afirmou Telma.

A versão da prefeita, no entanto, bate de frente com o que Cachorrão havia dito na quarta-feira, dia 15 de abril, um dia após o rompimento público. Na época, o vice-prefeito afirmou que a pré-candidatura já havia sido comunicada previamente à prefeita e aos padrinhos políticos dela, o deputado federal Capitão Augusto e a deputada estadual Dani Alonso, ambos do PL. “Eu falei numa reunião que nós fizemos em Ourinhos, na casa dele, de que eu tinha pretensão de sair candidato. Não houve problema nenhum, isso foi tratado com naturalidade“, disse Cachorrão na época. Questionado se Telma teria se oposto à candidatura, ele foi direto: “Não, jamais.”
A prefeita também explicou o episódio que, segundo ela, motivou as medidas tomadas naquele dia 14 de abril. Alexandre Cachorrão havia solicitado que um funcionário da comunicação da Prefeitura o acompanhasse em suas atividades. Para Telma, o pedido era inadequado para um pré-candidato. “Ele é pré-candidato a deputado. Eu tenho que blindar a prefeitura. Alguém entrando dentro do Paço Municipal para pegar santinho, para conversar de política com uma secretária — só para isso — ganhando mais de R$ 6 mil bruto. O jurídico orientou que não pode. E não pode mesmo“, disse.
Sobre o secretário de Governo, Leandro Bergonso — um dos alvos das críticas de Cachorrão, Telma o defendeu e revelou que ele chegou a apoiar a pré-candidatura do vice-prefeito. “O secretário de governo, inclusive, estava abraçando a candidatura dele, apoiando, conversando”, afirmou a prefeita.
Telma negou ter “enxotado” o vice-prefeito e defendeu que o Paço Municipal é um espaço público, não político. “Eu ouvi que eu enxotei o vice-prefeito de dentro. Não. Dentro do Paço Municipal, nós tínhamos procuradores atendendo o povo suado no corredor, em pé. Não posso permitir que ali tenha um comitê político. Gabinete é do povo, tudo ali é do povo”, afirmou. Segundo ela, ninguém pressionou o vice-prefeito. “A opção foi dele. Ninguém foi lá falar de exoneração. Eu não falei nada.”

A prefeita também abordou sua própria posição política. Ela reconheceu que tem padrinhos políticos declarados, mas fez questão de separar o apoio pessoal da gestão pública. “Todos sabem, eu nunca escondi, que tenho pessoas que me apoiaram desde sempre e estão comigo. Mas não posso fazer com que esse apoio, fora da prefeitura, atrapalhe a vinda dos demais. A cidade é de todos. Eu não permito politicagem dentro da Prefeitura Municipal de Assis“, declarou.
O episódio do despejo ocorreu no dia 14 de abril, um dia após Cachorrão criticar publicamente a condução da gestão, especialmente em relação ao contrato emergencial da UPA Ruy Silva, firmado por mais de R$ 21 milhões e que é alvo de inquérito civil do Ministério Público. Na época, o vice-prefeito afirmou estar “inconformado e humilhado” com as medidas adotadas e declarou que, a partir dali, seu “gabinete seria nas ruas”.
