Durante anos ouvimos que a Inteligência Artificial reduziria custos, aumentaria a produtividade e revolucionária todos os setores da economia. Tudo isso continua sendo verdade. Mas existe um outro lado dessa história que começa a aparecer com mais força: alguém precisa pagar essa conta.

A recente reportagem do portal TecMundo, baseada em um levantamento da Nikkei Asia (fonte: https://www.tecmundo.com.br/mercado/414716-divida-oculta-de-big-techs-aumenta-8x-por-gastos-com-ia.html), revela que as maiores empresas de tecnologia estão assumindo compromissos financeiros gigantescos para sustentar a corrida pela IA. Segundo o estudo, Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle já acumulam aproximadamente US$ 1,65 trilhão em obrigações futuras relacionadas principalmente à construção de data centers, compra de GPUs, servidores e contratos de infraestrutura de longo prazo.

Esses investimentos não acontecem por acaso. Modelos de linguagem, geração de imagens e agentes inteligentes exigem uma grande quantidade de processamento. Cada nova versão de uma IA consome mais energia, mais armazenamento, mais placas aceleradoras e mais capacidade computacional.

E isso custa caro.

A conta não fica apenas com as Big Techs

Embora os investimentos sejam realizados por essas grandes empresas, quem utiliza essas plataformas também começa a sentir seus efeitos.

Nos últimos anos, desenvolvedores passaram a incorporar IA em praticamente qualquer tipo de software:

  • atendimento automatizado;
  • geração de documentos;
  • análise de processos;
  • classificação de imagens;
  • chatbots;
  • assistentes virtuais;
  • tradução automática;
  • automação de fluxos.

Em muitos casos, essas funcionalidades são oferecidas por meio de APIs pagas.

O problema é que, à medida que a infraestrutura necessária para manter essas plataformas cresce, cresce também a necessidade de monetização.

Na prática, isso significa reajustes de preços, novos modelos de cobrança e redução de gratuidades.

O caso da Meta é emblemático

A Meta aparece como um dos exemplos mais claros dessa necessidade de ampliar receitas.

O estudo citado pelo TecMundo aponta que a empresa acumula cerca de US$ 420 bilhões em obrigações relacionadas à expansão de sua infraestrutura de IA (quase três vezes sua dívida registrada oficialmente).

Esse contexto ajuda a entender algumas decisões recentes da companhia.

Um exemplo bastante significativo é a mudança anunciada para a WhatsApp Business API.

Durante anos, empresas puderam responder clientes dentro da janela de atendimento de 24 horas sem cobrança por mensagens de serviço. A partir das novas regras anunciadas pela Meta, essas mensagens também passam a ser tarifadas, alterando o custo operacional para empresas que utilizam a API oficial.

Sob o ponto de vista financeiro da Meta, a decisão faz sentido: ampliar receitas para ajudar a financiar investimentos bilionários em IA e infraestrutura.

Sob o ponto de vista dos desenvolvedores e das empresas clientes, entretanto, representa mais um custo que precisa ser absorvido.

E dificilmente será o último.

A IA está deixando de ser um diferencial barato

Há poucos anos, integrar IA em um sistema era visto como uma inovação de baixo custo, mas hoje a realidade é diferente pois cada interação possui um custo computacional.

Isso faz com que empresas de software precisem revisar completamente seus modelos de negócio.

Muitas funcionalidades que antes poderiam ser oferecidas sem custo adicional agora precisam ser limitadas, tarifadas ou incorporadas em planos mais caros.

Desenvolver IA também exige inteligência financeira

Existe um desafio importante para os desenvolvedores: não basta criar lindas funcionalidades utilizando IA. É preciso garantir que elas sejam financeiramente sustentáveis, pois cada chamada a uma API precisa gerar valor suficiente para compensar seu custo.

Caso contrário, o sucesso do produto pode se transformar em prejuízo.

Essa é uma mudança de paradigma para todo o mercado de software.

O futuro será cada vez mais seletivo

É improvável que os investimentos bilionários em IA diminuam nos próximos anos.

Tudo indica que a competição entre as grandes plataformas continuará acelerando a construção de data centers e a compra de infraestrutura especializada.

Como consequência devemos esperar novas formas de monetização.

Desenvolvedores precisarão escolher com muito mais critério onde utilizar IA, quando utilizar modelos menores, quando executar modelos localmente e quando realmente vale a pena recorrer aos grandes provedores.

A Inteligência Artificial continuará transformando o mercado de tecnologia. Mas uma coisa já ficou clara: ela não será gratuita.

O verdadeiro desafio dos próximos anos não será apenas construir aplicações inteligentes, mas fazê-las de forma economicamente sustentável para quem desenvolve, para quem vende e para quem utiliza essas soluções.

Adriano Romagnoli, Executivo de Soluções da Ordem Pública Tecnologia, especialista em Cidades Inteligentes e pós-graduando em Engenharia de Software com IA Aplicada

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